Joel Samways Neto
Polícia & periculosidade política
Joel Samways Neto
As eleições municipais estão aí. Novamente, como acontece em cada pleito eleitoral, as cidades serão diagnosticadas e prognosticadas. Candidatos e recandidatos decerto virão dizer as mesmas coisas, apontar os mesmos defeitos, anunciar as mesmas promessas porém, moduladamente, com frases e cores supostamente originais, como os marketólogos pensam que o povo gosta.
De acordo com as atuais medidas de temperatura e pressão sociais, os marketólogos não precisarão quebrar muito a cabeça para ir ao encontro do povo. A tônica que permeia as expectativas de todas as cidades brasileiras é apenas uma: segurança. Segurança para dormir sossegado, segurança para sacar dinheiro no caixa automático, segurança para caminhar nas calçadas e praças, segurança para transitar de carro e parar, sem medo, no semáforo; segurança de saber que os filhos irão para a escola e não aprenderão a usar droga, lícita ou ilícita, nem a formar quadrilha infantil, infanto-juvenil e juvenil para disputar espaço; segurança de comprar um remédio na farmácia com a certeza de que ele é autêntico, no produto e no preço... Enfim, a expectativa mais importante da sociedade, hoje, é a segurança pública, até porque sem ela ninguém manterá a saúde, ninguém conseguirá tranquilidade para estudar e as classes produtivas não investirão na prosperidade que gera empregos.
Dentro desse amplo departamento que é a segurança pública, merece destaque o setor administrado pela Polícia Militar, que faz policiamento ostensivo, preventivo, repressivo, mas também é encarregada da defesa civil, salvamento e socorro, combate a incêndios, policiamento de trânsito. O cidadão desconfiou que há movimento de estranhos ao redor de sua casa, à noite, não tem dúvida em discar 190. Assim também a parturiente que mora na periferia, sem condições de chamar ambulância, não hesita em discar 190, no telefone público, e lá vai o policial militar levá-la ao hospital, que, às vezes, acaba sendo a própria viatura. Em razão dessa proximidade com as pessoas, é à PM que normalmente se dirigem os maiores elogios, e também as maiores críticas.
A quantas anda a PM do Paraná? Essa pergunta não admite resposta simplista. O teatro das operações policiais militares invariavelmente beira ao fenômeno sociológico, com todas as crises decorrentes disso. Note-se, por exemplo, as implicações entre polícia e política a mesma política que vai discursar para nós no ano que vem.
De uns dez anos para cá, Curitiba, passou a ganhar um espaço imenso na mídia regional e nacional. Indiscutivelmente, um processo que não foi espontâneo, mas provocado pelo marketing político. Entenderam alguns que a cidade deveria ser a carta de apresentação de políticos que queriam alçar maiores vôos. E em toda parte ouviu-se dizer que Curitiba era a melhor cidade do Brasil, terceira ou quarta colocada no ranking mundial. E deu certo, porque esta cidade, de fato, tinha lá seus predicados. Mas na rebarba da publicidade veio o interesse de milhares de brasileiros que migraram para a capital do Paraná em busca de uma tal qualidade de vida. A população aumentou muito, e o número de veículos trafegando nas ruas aumentou muito também. E a cidade não teve condições de absorver toda essa gente, proporcionando-lhe equilibradamente casa, escola, emprego, saúde etc. A cidade inchou; os conflitos e as urgências, idem. Regiões que tinham 20 mil pessoas passaram a ter 50 mil, 80 mil. Como dar conta do recado da segurança pública? Quantos habitantes para cada policial cuidar? No Canadá, a média, obediente aos rigores da ciência policial, é de um agente para 250 habitantes. Qual será a proporção em Curitiba? E no Paraná? Não é nada boa. Para dizer a verdade, talvez seja uma desproporção escandalosa.
Tudo bem que foi, tem sido, no atual governo, desde o primeiro mandato, a melhor fase da Polícia Militar (recuperação salarial, atualização de equipamentos, viaturas, armas, coletes à prova de balas). Só que a administração da segurança pública é um processo. A crise maior, atualmente, é a deficiência de recursos humanos, de contingente. Faltam policiais para atender à população. Políticas perigosas fizeram explodir a densidade demográfica de algumas cidades. Essas políticas, agora, precisam ser zelosas o suficiente para conter os desequilíbrios dessa explosão. Precisam saber aplicar os critérios de austeridade na folha de pagamento dos servidores públicos, sem fragilizar os socorristas de todas as horas, os policiais militares.
- JOEL SAMWAYS NETO é escritor e procurador do Estado em Curitiba





