Joel Samways Neto
Greve: o abuso do método
Sim, porque a paralisação não foi fruto de consenso coisa nenhuma. Chegou-se a ouvir quem dissesse, comentando o assunto, que a adesão era espontânea. Espontânea? Num ou noutro lance, naqueles segundos de reportagem de televisão, deu para perceber que, em primeiro lugar, o movimento paredista não era unânime. Apareciam lá motoristas de caminhão, contrariados, dizendo que tinham carga perecível, que queriam seguir viagem, mas que estavam sendo impedidos. Conversando com um desses motoristas, o Zico, morador em Curitiba, que transporta carga como autônomo, a realidade mostrou-se diferente. Ele foi barrado quando regressava de Garuva (SC), de carroceria vazia. Foi parado por um agente da Polícia Rodoviária Federal (?), que o mandou estacionar no acostamento. Imediatamente, seu caminhão foi cercado por pessoas que diziam ser sindicalistas. Falaram-lhe sobre a greve, que ele não podia ser um traidor da categoria etc. O Zico não estava a fim de parar, porque depende do seu trabalho, e caminhão parado é prejuízo. Mas não teve escolha, os sindicalistas ameaçavam apedrejar o caminhão quem tentasse furar o bloqueio, e, segundo o Zico, linchar o motorista furão.
Disseram ao Zico que a parada duraria umas 2 horas. Ficou 13 horas! Só não ficou mais porque conseguiu fugir. Aproveitou o fato de ser um dos primeiros da fila, e, quando os sindicalistas cochilaram, já de madrugada (estavam na cachaça, disse o Zico), deu o fora. O Zico falou que 80% dos que estavam parados não concordavam com a greve! E que havia pessoas sofrendo demais naquela estrada. Tinha motorista que estava com mulher e filhos na cabine, parados a 15 km do bar mais próximo. Que espontaneidade é essa? O cidadão ser obrigado a parar seu caminhão, e ficar olhando a carga apodrecer... No País da fome e da miséria, vimos toneladas de leite, ovos, frutas, animais mortos, serem despejados nos acostamentos devido ao tempo da paralisação. Agora, ouvi, vi e li muita opinião de gente que estava em casa, tomando um café quente, dizendo que era a favor da greve do jeito que ela estava sendo conduzida.
Fazer greve é um direito assegurado na Constituição da República. Todavia, não é um direito absoluto, sem limites. A greve não pode gerar um impasse antidemocrático - não pode estagnar, por exemplo, serviços e atividades essenciais; no entanto, muitos hospitais ficaram à mercê do colapso por causa da falta de oxigênio para atendimento médico; muitas pessoas perderam compromissos devido ao atraso (de até 12 horas) nas viagens de ônibus; muitas pessoas que estavam paradas, nos bloqueios, passaram mal e correram sérios riscos devido à dificuldade para receber atendimento... Por mais justas que pudessem ser as reivindicações dos caminhoneiros, nada, absolutamente nada justifica atropelar os direitos individuais e coletivos. Pára quem quiser parar, associa-se à entidade de classe quem quiser se associar. Todos têm a liberdade de se locomover - ir, vir, permanecer - no território nacional. As paralisações, principalmente em relação a serviços essenciais, não podem ser totais. Repita-se: não era o objetivo da greve que estava equivocado, era o método. Cada hora que o cidadão ficou parado na estrada, sem comida, sem água, sem banho, sem dormir, sem liberdade, sem respeito, sem dignidade, equivale a quantas horas? Esse tipo de método de negociação não pode se transformar em praxe, se não teremos que reinventar o Estado. É elementar, é básico, que numa sociedade democrática nenhum interesse de grupo, de classe, de categoria, pode se sobrepor ao interesse geral da Nação. E o interesse geral da Nação está expresso nas leis criadas pelos representantes do povo, filiados a partidos políticos e escolhidos através de eleições livres. Será que depois de lutar tanto contra o arbítrio de militares o Brasil terá que lutar contra o arbítrio de civis?
- JOEL SAMWAYS NETO é escritor e procurador do Estado, em Curitiba





