Joel Samways Neto
Espaço aberto
O País das maledicênciasJoel Samways Neto
Maldizer a vida alheia é a face sombria do perfil do brasileiro. Poucas são as conversas em que os interlocutores não lançam farpas contra alguém, realçando-lhe o que tem de ruim e contraditório. Até parece que isso acrescenta um sabor especial na conversa, uma pitada de pimenta-do-reino, que mexe com as glândulas salivares dos que estão na roda do cafezinho e atribui status a quem maldiz.
O maledicente, essa pessoa que coleciona erros dos outros, assume ares de importância sempre que começa a desfiar a folha corrida de suas vítimas. É como se isso lhe desse uma espécie de poder, de onisciência, uma sensação de ter pessoas na mão. Porque essa é a mística dos segredos, os que os detêm passam a impressão de que fazem parte de uma classe diferenciada, especial, de pessoas. Os ouvintes ficam admirados com a capacidade do maledicente, como é que ele sabe daquilo tudo?
Bem analisada, a maledicência em geral não resiste à crítica mais superficial. Primeiro, porque ela é feita a partir de pedaços muito pequenos da vida cotidiana. O maledicente como que fotografa um ato de descuido, de distração, de equívoco, de imprudência, negligência ou imperícia, de alguém que mal-e-mal conhece, e faz dessa fotografia o fundamento de sua sentença condenatória. Quando vem à baila da conversa o nome do infeliz, o maledicente saca rápido o seu álbum de fotografias e declara, em tom de autoridade, que fulano é ladrão, incompetente, safado, pilantra, desleixado etc., porque teve um minuto de bobeira na vida.
Às vezes, o maledicente só sabe o nome de sua vítima e esse tal minuto de bobeira, mais nada. Se sabe de um erro profissional, nada sabe dos acertos familiares; se sabe de erro familiar, nada sabe dos acertos profissionais. Ou mesmo dos outros acertos familiares e profissionais. Por que uma pessoa que acertou 99,5% acaba sendo atacada por 0,5% de erro? Mas o pior não é isso, apenas. O pior é que às vezes o maledicente não viu, não testemunhou, o ato equivocado. Simplesmente ouviu dizer. E porque ouviu dizer, e deu crédito a quem disse, multiplica o feito, sem se importar se é boato ou não.
É notável a facilidade como a maledicência flui, como é fácil manchar nomes, honras. É notável como todos os interlocutores ficam atentos para ouvir esses julgamentos sumários da dignidade humana.
Agora, o que acontece quando a maledicência - que, por si só, já é algo negativo - está baseada numa mentira ou numa mera suspeita? Estava pensando nisso quando vi, semana passada, na capa de uma revista de circulação nacional, a fotografia de um funcionário público federal com a seguinte chamada, em vermelho: O suspeito número 1, e seguia dizendo que o homem era apontado pela polícia como sendo o espião que grampeou até o presidente da República. Na reportagem, o referido homem alega inocência, e os repórteres reconhecem que tudo não passa de suspeição, mas dizem que há fumaça, e se há fumaça...
Como se não bastasse a flagrante jogada marketeira da revista, sua capa ainda foi colocada em outdoors (pelo menos, aqui em Curitiba), com fundo de cor amarela, bem chamativos. O expediente provavelmente foi repetido nas outras grandes cidades do País. Em suma, mesmo que o tal homem um dia venha a provar sua inocência, ou se acusadores não consigam provar sua culpa, será impossível desvincular sua imagem, seu nome, da suspeição. No futuro, sempre que a imprensa mencioná-lo dirá que se trata daquele fulano considerado suspeito de ter grampeado o telefone do presidente da República. Seus filhos serão os filhos do suspeito do grampo, sua esposa será a esposa do suspeito. Nem que o tal homem ande com uma sentença absolutória no bolso, para mostrá-la a quem duvidar de sua lisura, dificilmente convencerá.
De onde vem essa facilidade com que a imprensa lança no lamaçal da dúvida, sumariamente, a honradez dos cidadãos brasileiros? Vem, certamente, da mesma mentalidade que sustenta os maledicentes do dia-a-dia. Essa mentalidade que se inicia na fofoca, e desta passa à falácia, da falácia à maledicência... E mentalidade social é resultado da somatória da mentalidade de cada cidadão. Logo, no cerne da crise está a falta de ética, a falta de caráter, a falta de respeito dos agentes da maledicência, sejam os maledicentes do varejo, sejam os maledicentes do atacado, estabelecidos no mercado.
JOEL SAMWAYS NETO é escritor e procurador do Estado em Curitiba





