Joel Samways Neto
Política de conflito
Ai, ai, até quando teremos de aguentar os agentes do atraso no processo político brasileiro? A imprensa sensacionalista pode esfregar as mãos, Itamar Franco (PMDB) já está aí. Há poucos dias, no primeiro dia útil (?) de sua gestão no governo de Minas Gerais, Itamar reuniu jornalistas e disse que não iria pagar a dívida do Estado com a União. Disse, sim. Apareceu na televisão, e depois confirmou em entrevistas exclusivas.
Aí, perguntaram ao ministro Pedro Malan o que ele achava da pretensão do governador mineiro, e, por óbvio, o ministro respondeu que havia um contrato a ser cumprido. Os incendiários de plantão então correram ao governador do Rio Grande do Sul, Olívio Dutra (PT), saber da situação do Estado gaúcho. ‘‘A dívida é impagável’’, disse Dutra. Logo todos os governadores de Estados falidos ou pré-falimentares engrossaram o coro da reclamação. A intensidade da grita variou do calote puro e simples à moratória a prazo certo, e com renegociação.
Tudo leva a crer que Itamar Franco vai continuar se prestando a ferramenta de manobra da oposição. Com sua atitude política pouco consequente, de dizer o que lhe der na veneta, bravateira, será um excelente aríete contra as reformas constitucionais - eleitas pelo povo! - que o governo federal tenta implementar.
Ora, há um contrato em vigor, celebrado com o governador anterior, eleito democraticamente, que agiu legalmente, comprometendo-se, oferecendo garantias etc.. Se há rombo nas finanças do Estado, que se façam auditorias e que se prestem contas à população acerca das responsabilidades de cada um. Se não houver meio de pagar as parcelas da dívida e não for interessante para Minas Gerais torrar o patrimônio dado em garantia, proponha-se abertura de diálogo com vistas à renegociação. Agora, vir com essa criancice de bravatear que não paga e pronto, e ainda fazendo cara de mau, é desonrar a cidadania mineira. É oposição de baixo nível.
Para se ver como faz falta a reforma na lei dos partidos políticos. Se houvesse a elementar e indispensável fidelidade partidária, por exemplo, essa bravata do Itamar já lhe teria custado a expulsão do partido - o PMDB, que faz parte da sustentação política do governo federal.
Essa mentalidade que admite esse tipo de política de conflito precisa acabar, pois quem perde com isso é o Brasil. Que demora para se reporem os pingos nos is. No dia seguinte à bravata, corre lá o secretário da Casa Civil e Comunicação de Minas Gerais, Henrique Hargreaves, com panos quentes, fazendo papel de mais idiota que o do bravateiro, dizendo que Itamar não disse aquilo que ele disse. O que o governador tinha querido dizer, segundo Hargreaves, era que a moratória era uma das medidas que poderiam ser tomadas, e que não houve nenhuma correspondência oficial ao Palácio do Planalto falando a respeito de moratória. É o velho estilo bate-e-sopra, velho como as idéias de seus protagonistas.
Ao invés de a imprensa dar trela a Itamar, ela deveria, isto sim, estar investigando o que aconteceu com o dinheiro emprestado pela União, em quais obras e serviços públicos ele foi consumido e como os rombos apareceram.
Claro, se não estivesse em jogo o dinheiro das reservas federais, recolhidos por todos os brasileiros, até poderíamos dizer ‘‘bem feito’’ para os mineiros, pariram Itamar, que o embalem.
A água comprometida No último feriado, cerca de 1.900 pessoas que desceram ao litoral do Paraná apresentaram sintomas de intoxicação (diarréia, vômito e febre). Segundo reportagem de Adriana Ribeiro, nesta Folha, ontem, cogitou-se de que o vilão da história pudesse ter sido a água da Sanepar. O Ministério Público (MP), através da promotoria do Meio ambiente, encaminhou ofício à referida empresa pedindo informações sobre a qualidade da água sanepariana. A reportagem adiantou que, segundo as análises físico-químicas e bacteriológicas realizadas pela Sanepar, não foram constatadas irregularidades. Para a empresa, a causa das intoxicações talvez fosse a qualidade da água armazenada em caixas d’água, tubulações e cisternas das residências.
Ora, ora, deixe-me ver se eu entendi. Diante da suspeita de que a água da Sanepar poderia ser a causadora das intoxicações, o Ministério Público oficiou à empresa no sentido de que informasse sobre seu controle de qualidade. Ou seja, o MP estaria contando que a Sanepar, caso encontrasse irregularidade na qualidade do seu produto, se autodenunciasse!?
Sem querer colocar em dúvida a idoneidade da Sanepar, até porque não se trata disso, aqui, mas como é que o consumidor pode ter certeza da qualidade do produto que está consumindo se essa qualidade for atestada só pelo fabricante? Equivale a perguntar ao dono de um hotel se sua cozinha é limpa e se ele garante a qualidade das refeições que serve aos clientes. Ou então, perguntar ao dono do posto de gasolina se ele garante que sua gasolina não tem água misturada. Ou, ainda, perguntar ao dono da farmácia se os medicamentos que ele vende não são falsificados.
Para mim, como consumidor, não é suficiente, do ponto-de-vista da saúde pública, diante dos critérios de certeza minimamente estabelecidos, um laudo feito pela própria empresa cujo produto fora colocado sob suspeita. É muita ingenuidade! Pode até ser que a água da Sanepar seja excelente, que os funcionários que fazem a operação de tratamento (que colocam a química na água) sejam muito bem treinados e muito bem pagos, e muito bem supervisionados por técnicos especializados, diariamente; pode até ser que a água da Sanepar não utilize metais pesados (como alumínio, por exemplo) no tratamento da água, nem excesso de cloro; pode até ser que a Sanepar garanta que os mananciais que abastecem a represa sejam bem cuidados e protegidos da poluição; pode, finalmente, até ser que os diretores da empresa dêem demonstração de absoluta confiança no seu produto, abrindo uma torneira qualquer e tomando um copo de água, direto, sem ferver e sem filtrar (nunca fizeram isso, que eu saiba). Agora, aceitar que tudo isso seja verdade incontestável com base numa análise feita pela própria empresa, isso não dá para aceitar. O consumidor não pode ficar à mercê tão-somente de um controle interno, feito pela própria Sanepar. Então o Ministério Público que faça a gentileza de solicitar análises dessa água em outros órgãos de controle - e, de preferência, que não sejam só órgãos públicos, sujeitos a pressões políticas. Que sejam feitas análises em mais dois ou três laboratórios idôneos. Do contrário, é brincadeira.
Enquanto a população não tiver acesso a análises totalmente isentas, imparciais, não haverá certeza da potabilidade da água da Sanepar. O Ministério Público fez bem em se interessar pelo caso (embora depois que apareceram vítimas), então que vá até o fim e não se contente com laudos interna corporis. Até lá, o recomendável é seguir o exemplo do deputado Nelson Justus. Conforme o jornalista Leandro Donatti, também desta Folha, o deputado esteve em Guaratuba e não se intoxicou porque só tomou água mineral. ’ Água da Sanepar eu não bebo nem morto. Não uso nem para lavar o meu cachorro’ ’.



EM TEMPO:
O secretário estadual de Turismo e Esporte bem que poderia propor a privatização dos museus estaduais. Assim, quem sabe o Museu Paranaense poderia ser visitado aos domingos e feriados.
- JOEL SAMWAYS NETO é procurador do Estado do Paraná e escritor em Curitiba, e está substituindo o jornalista Luiz Geraldo Mazza que está em férias

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