Joel Samways Neto
Joel Samways Neto
História oficial
Quanto de verdade haverá nos registros da história? Quanto mais distante no tempo, quanto mais precários os elementos de prova, a coleta de informações, maiores as dificuldades de reconstrução dos fatos. Isso chega ao ponto de alguns pesquisadores defenderem a idéia de que a verdadeira história nunca foi escrita (pois, mesmo escrita, restaria sempre uma ponta de dúvida a respeito da autenticidade de seu conteúdo). Outros dizem que não há história, há versões da história. Entre o dito, o feito e o registrado pode haver tanta simulação ou dissimulação que o imaginário do historiador, suas especulações, suas ilações, têm um campo vasto a percorrer.
Estão aí os revisionistas, não estão? Como ferramenta de doutrinação, os regimes totalitários são um exemplo lamentável do que se pode fazer com a história. Usando o viés ideológico, facilmente reconstroem, reescrevem, refotografam, refilmam, as fontes, os estoques de memória. Na história oficial da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, o período stalinista foi marcado dessas correções em que fotografias históricas recebiam novas versões, atualizadas, nas quais os dissidentes simplesmente desapareciam. Aliás, um dos muitos problemas enfrentados pelos ex-soviéticos, pós-Gorbatchov, foi explicar coisas como por que o avião não tinha sido, afinal, inventado pelos russos, conforme era ensinado nas escolas.
Que dizer dos defensores do nazismo (que não são neo porque as idéias são exatamente as mesmas do Partido Nacional Socialista alemão, dos anos 30), na versão brasileira proveniente da Região Sul? Editam livros curiosíssimos tentando explicar que as fotos feitas entre os despojos dos campos de concentração eram apenas fotomontagens. Ou dizendo que os judeus entravam nas câmaras de gás não para morrerem, mas para acabarem com a infestação de piolhos, daí a razão de estarem todos de cabeça raspada (!). O que acontecerá quando morrerem os últimos sobreviventes do holocausto, aqueles anciãos que hoje nos mostram seus braços, marcados pelos nazistas como se fossem gado de abate? Do que será capaz a computação gráfica no sentido de alterar o curso da história passada? Tive a oportunidade de folhear um dos livros de propaganda nazista editados no auge do 3º Reich (muito bem conservado por um conhecido livreiro da Capital). Segundo esse livro, ricamente ilustrado com fotografias, Hitler não teria ficado enraivecido com a derrota nos XIV Jogos Olímpicos, realizados em Berlim (1948), quando os negros venceram quase todas as provas de atletismo (só o norte-americano Jesse Owens ganhou quatro medalhas de ouro). Uma contraposição aos filmes-documentários que todos conhecemos e que estampam o descontentamento do Fuhrer. O tal livro é ridículo - mas, e daqui a cem anos?
História de bastidores. Pessoalmente, concordo que a verdadeira história acontece mesmo é nos bastidores, e que os melhores lances provavelmente jamais serão conhecidos integralmente. Os registros, ora os registros. Alguns, decerto, são 100% autênticos e corretos; outros muitos, talvez não. Ou nas biografias, nas autobiografias, nos depoimentos pessoais, a verdade é totalmente revelada? Vejo que todas essas descrições são verdades segundo a fonte que a oferece.
Em política, então, o que de verdade efetiva haverá além dos atos publicados em diário oficial e das inaugurações de obras consumadas? A crônica política deve ser o maior exercício de especulação que existe, pois o jogo político se utiliza da simulação e da dissimulação como tática e estratégia de poder. O real acontece é nas entrelinhas e nos subtextos, e nos almoços e jantares a portas fechadas.
Um amigo contou-me que sua decepção com a militância político-partidária aconteceu depois de ter sido assessor de um deputado federal, em Brasília. Cansou de ver correligionários saírem de uma reunião em que se comprometeram com um determinado posicionamento político, e logo ali, no corredor, darem uma entrevista à TV dizendo algo totalmente diferente do que haviam acordado. Ética na política ou é titica na política?
Note a história oficial da política paranaense. Esta Folha publicou ontem (2/01), na primeira página, no alto à direita (pedaço nobre da página mais nobre), uma foto em que aparecem o governador reeleito Jaime Lerner, o presidente da Assembléia Legislativa Aníbal Khury e a vice-governadora Emília Belinati. O governador aparece olhando para um lado, a vice para outro. No discurso oficial, para o registro oficial, ambos declararam que o desacerto da véspera, a respeito da forma como o secretariado foi escolhido, era página virada. O fotojornalismo praticado por Kraw Penas, no entanto, pode ser a melhor previsão do rumo do governo estadual desse segundo mandato. Não adianta os contendores dizerem que se respeitam, que têm apreço recíproco e até apertarem-se as mãos sob os auspícios do Sr. Aníbal. A vice-governadora não é apenas a Sra. Emília, é a Família Belinati do Norte do Paraná. O esposo (casaram-se em regime de comunhão universal de bens?) é prefeito da segunda cidade mais importante do Estado, e o filho é um jovem e promissor deputado estadual eleito.
Essa história oficial de escolha do secretariado também pode ser uma bela cortina-de-fumaça. No vasto campo das especulações, das ilações, do imaginário, é possível exercitar que o rompimento não-declarado entre governador e vice não se deve a questões meramente formais (a vice não teria sido consultada na hora da escolha dos secretários). Muito menos o problema se deveu a falta de virtudes de caráter (como se referiu Algaci Túlio, sobre falta de humildade). Pode-se indagar, livremente, se a dissidência não estaria ligada ao modelo de governo proposto por Lerner, no primeiro mandato, e o que virá a seguir, no segundo - com eventuais desequilíbrios de investimento entre Capital e Interior (em que pese a publicidade oficial conciliadora, no primeiro mandato). O ponto-chave é: quais grupos econômicos sairão, ou continuarão a sair, fortalecidos na gestão 1999-2002?
Se a dissensão foi só birra, pobre e mediocrizado Paraná. Se foi tática, então teremos surpresas macropolíticas.
Caudal da história
Há quase quinze anos, ouvi falar em cultural lag. Foi numa abordagem grimniana (de A. Grimm) sobre antropologia social. Procura daqui, procura dali, e nada de encontrar alguma coisa sobre o tema. Fui achar na Biblioteca Pública do Paraná um único exemplar do livro de um antropólogo social chamado A. Southerland, que trabalhava o conceito de cultural lag. Não achei livro traduzido, só o original inglês (será que a universidade está trabalhando o tal conceito?).
Para Southerland, há um grupo dentro da sociedade que sempre resiste às mudanças porque está bem assim do jeito que está. É aquele grupo que de certa forma se beneficia com o estado de coisas, por mais injusto que ele seja à maioria. Então é o grupo que fica mais atrás das transformações, das revoluções, é o que anda mais devagar (daí o verbo lag). Obviamente, essa resistência tem limite. Num determinado momento, esse grupo é levado de arrasto pelas modificações assimiladas pela maioria. O problema é que o lag atrasa o processo.
Pensei nisso quando li o discurso de posse de Itamar Franco ao governo de Minas Gerais.
- JOEL SAMWAYS NETO é procurador do Estado do Paraná e escritor em Curitiba, e está substituindo o jornalista Luiz Geraldo Mazza que está em férias





