Joel Samways Neto
Jejum à indiana
Ainda na linha da narrativa sobre as ‘‘Metodologias 99’’, os novos canais de relacionamento entre cidadão e Estado, não se pode esquecer do jejum.
Novidade nenhuma para outros povos essa recusa à alimentação como forma de protesto contra alguma opressão. As greves de fome mais bem sucedidas do século 20 foram protagonizadas por Mohandas Gandhi, o Mahatma (‘‘Grande Alma’’) indiano, ao tempo em que a Índia era colônia do Império Britânico. Em 1918, jejuou por três dias em manifestação de apoio aos operários das fiações de Ahmedabad, que estavam em greve. Em 1919, mais três dias de jejum contra atos de sabotagem praticados nas manifestações contra as leis Rowlatt. Em 1920, outro jejum, desta vez em solidariedade aos muçulmanos. Em 1921, Gandhi jejuou durante cinco dias por causa dos mortos num conflito em Bombaim. Novo jejum em 1922, após condenação a seis anos de reclusão. Em 1924, permaneceu em jejum durante 21 dias, devido aos movimentos hindu-muçulmanos de Kohat. Em 1932, preso, Gandhi inicia um jejum de morte para defender os ‘‘intocáveis’’, os párias da sociedade indiana. Em 1942, novamente na cadeia, jejuou 21 dias pedindo independência da Índia. Para se ter uma idéia da idade com que Gandhi fazia seus jejuns, note que ele nasceu em 1869.
Winston Churchill, primeiro-ministro inglês, tinha menosprezo pelo franzino líder espiritual indiano. Segundo relatos históricos, Churchill era da opinião seguinte: se Gandhi queria morrer, deixassem-no morrer. Porém, a liderança do então septuagenário Mahatma era muito forte entre indianos e muçulmanos, que somavam cerca de 250 milhões de habitantes. Daí, no seu último jejum antes da independência, Gandhi aparecia para falar à multidão, enfraquecido, cambaleante... E quando o monsenhor Ivo Zanlorenzi, professor de filosofia, falava nesse assunto, colocava seus óculos na ponta do nariz, arqueava-se e cambaleava na sala de aula (era engraçado porque o monsenhor Ivo deveria ter 1,90m de altura). ’ -Ai, se o Gandhi morrer! Ai, se o Gandhi morrer!’, dizia o professor, batendo na palma da mão com o punho cerrado, representando a atitude de revolta do povo indiano. Pois é, na relação custo-benefício imperial era mais barato independentizar a colônia indiana do que enfrentar 250 milhões de enfurecidos.
Gandhi ainda fez outros dois jejuns de morte, depois disso. Porque, uma vez livres do jugo britânico, hindus e muçulmanos é que começaram a brigar (com a independência da Inglaterra, tiveram de criar o Paquistão para os muçulmanos).
Chamo a atenção para o fato de Gandhi sempre ter feito seus jejuns em defesa de causas altruístas (a Índia, a igualdade de classes, o repúdio à violência). Foi um homem que viveu e sofreu suas convicções ligadas à não-violência, à resistência pacífica - pois, para ele, ‘‘quem tem autoridade moral não precisa recorrer às armas’’.
Jejum à Brasileira No Brasil, estamos às voltas com o maior jejum da história - 45 dias -, praticado pelos sequestradores, à mão armada, do empresário Abílio Diniz. Sequestraram-no, mantiveram-no sob cativeiro, dentro de um buraco que seria sua cova, e o tempo todo tinha um revólver apontado para sua cabeça. A polícia acabou prendendo os sequestradores, que alegavam motivações políticas para o cometimento do crime. O Supremo Tribunal Federal, depois de um processo regular, com direito à ampla defesa, entendeu que não se tratou de crime político mas de crime comum. Foram condenados na forma da lei, como aconteceria com qualquer outro brasileiro em situação semelhante.
Nove anos depois, não a opinião pública, mas algumas opiniões publicadas, na mídia, passaram a reavivar a tese do crime político, ‘‘fazendo e andando’’ para a sentença do STF. Porta-vozes amplificavam seus discursos nos microfones e gravadores da imprensa repetindo, feito máquina, ‘‘foi crime político, foi crime político...’. Depois, disseram que a Justiça estava negando direito dos presos à chamada progressão no cumprimento das penas. Ora, o direito dos presos é o de requerer a concessão do benefício. À Justiça cabe, por lei, a faculdade de conceder ou não, de acordo com o livre-convencimento do juiz. É assim com todos os presos do País.
Até agora, repito eu, não vi nenhuma declaração da vítima do sequestro, não vi nenhuma pesquisa de opinião pública sobre o caso e já somaram horas e metros os espaços concedidos aos sequestradores, em jornais, rádios e TVs. Imagens ‘‘furtivas’’ foram divulgadas, mostrando os grevistas de fome esquálidos, esvaindo-se, com o narrador contando a nacionalidade, o estado civil, o número de filhos, de cada um deles. De criminosos passara a mártires. Não por apoio popular - pois, com certeza, o povo há de repudiar o crime de sequestro -, e sim por montagem de mídia. ‘‘Entregaram a vida nas mãos do presidente da República’’, disse o porta-voz do ‘‘comitê de libertação’’. E o presidente Cardoso, que, ao que se sabe, nunca andou armado nem praticou terrorismo, de repente virou culpado por antecipação, caso morram os criminosos.
De novo, a culpa do governo é a de não saber a diferença entre truculência ditatorial e firmeza de disciplina democrática. Com terrorismo, seja lá qual for sua motivação, não deve haver negociação nunca - esse é um princípio fora do qual as concessões terão de ser feitas sempre. Pois o governo federal concedeu a ponto de afrontar o Estado de Direito, forçando essa transferência dos presos estrangeiros aos seus respectivos países, sem aprovação do Congresso Nacional.
Então a metodologia do jejum, aqui, também funciona para defender interesses criminosos. Atenção, encarcerados do Brasil! Uni-vos! Greve de fome geral e todos os benefícios ser-vos-ão dados. É o ultimato do ‘‘Eu se’ mato!’.
Tirando casquinha. Numa atitude de total oportunismo, o presidente de honra do PT, eternamente em campanha para presidente da República, aparecia lá no Hospital das Clínicas para peruar, tirar fotos, gravar entrevistas. E anteontem, o telejornal nacional da TV Bandeirantes (que tem feito evidente oposição ao governo, depois da derrota eleitoral de Paulo Maluf), disse que Lula tinha chegado ao hospital ‘‘disposto a acabar com a greve de fome’’.
Em tempo: Nos EUA, o governo não se curva a greves de fome. Lá, a lei permite que a polícia obrigue o preso a se alimentar, inclusive mediante cirurgias no estômago. Quer dizer, o Estado não negocia nem suas leis nem sua democracia com criminosos condenados.

O esporte do turismo
O ministro Rafael Greca tem um grande desafio pela frente, o de tornar o Brasil um país melhor visitável. A dificuldade maior não é tanto a falta de recursos para remodelar a infra-estrutura, é a falta de tempo e políticas públicas para mudar o padrão da mentalidade social - essa que não se muda por decreto.
Para você ter uma idéia do nível do pensar coletivo, visite, por exemplo, os banheiros das universidades brasileiras. Experimente entrar nos da Universidade Federal do Paraná, a mais antiga do Brasil. Vá no prédio velho e nos prédios novos, a diferença é mínima. A média é de baixíssimo asseio, não porque a Instituição não limpa, mas principalmente porque os usuários não sabem respeitar a limpeza. Daí vá aos banheiros dos parques, logradouros públicos etc. do país, onde existem banheiros, e avalie.
Tratar bem do turista tem de começar por aí, pela mentalidade de quem o recebe.
- JOEL SAMWAYS NETO é procurador do Estado do Paraná e escritor em Curitiba, e está substituindo o jornalista Luiz Geraldo Mazza que está em férias

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