Joel Samways Neto
Joel Samways Neto
Metodologias 99
Diz o dito popular: Ano novo, vida nova!, clichê do clichê. Pura perfumaria do senso comum, frase vazia de significado para quem acordou bemol, hoje, lá pelo meio-dia. Quem foi atropelado pelos goles e garfadas do réveillon, esse acordou vinte anos mais velho. (Do Leminsky: Hoje acordei bemol,/ Tudo estava sustenido,/ Sol fazia,/ Só não fazia sentido.)
Quem acordou cedo, no entanto, respirou o ar fresco da matina com acompanhamento musical, em tom maior, da passarada. Deve vir daí a sensação de renascer todos os dias - renascer e encarar tal pagina em branco. Em 1999 serão trezentas e sessenta e cinco delas, límpidas esperando a escrita dos projetos e sua execução. Quem sabe quantos irão, finalmente, começar o regime para emagrecer, aquele prometido em 1997 para ser iniciado em 1998.
Quanto ao regime político, social e econômico, o rascunho certamente será aproveitado da história do ano passado. O único canal de intercomunicação realmente eficaz com o governo foi esse aí, aberto no empurrão. Quem tiver pleito com o poder público, tome nota: a metodologia indicada para ser ouvido, atendido, deferido, despachado, é a da radicalização. Diálogo, no Brasil, não tem funcionado.
A rigor, um ultraje. Nos anos 60, a revolução sexual teve em Herbert Marcuse seu maior ideólogo (vide Eros & civilização, Zahar Editores). Em meados dos anos 80, pós-transição democrática, os brasileiros tiveram Roger Rocha Moreira, roqueiro Roger da banda Ultraje à rigor, cevando a nossa mentalidade coletiva com a desconcertante poética de Nós vamos invadir sua praia. Sem querer, ou não, ele antecipou cerca de dez anos (isso costuma acontecer com poetas) o mote da metodologia dos chamados movimentos sociais, após a segunda derrota eleitoral de Lula. Invadir. Ocupar, conquistar, resistir, é o grito dos esbulhos possessórios cometidos pelo Movimento dos Sem Terra (MST). Que funcionam!
No princípio, os governantes ficaram olhando, atônitos, como quem pergunta E agora, o que é que a gente faz?. Não lhes passava pelo cérebro, por exemplo, pura e simplesmente aplicar a lei, como reza o bê-a-bá da democracia. Então o movimento foi engrossando, engrossando, logo os líderes passaram a mostrar-se como generais de exército, afrontando escancaradamente as autoridades constituídas, fazendo a imprensa de boba (será?), num dia dizendo um acinte, no seguinte desmentindo. Lembra da incitação à invasão de supermercados?
Quando os governantes acordaram (lá pelo meio-dia e meia dos acontecimentos), acionaram sua polícia militar, mal-paga e mal-treinada. É óbvio que os despejos dos esbulhadores nem sempre seria pacífico, pois eles, além de portarem armas brancas (também denominadas ferramentas de trabalho: enxadas, facões e foices, que cortam fundo e feio), adotavam procedimentos historicamente conhecidos (colocando à frente da polícia crianças, velhos e mulheres grávidas). Parte da mídia fez o resto do serviço. Em três tempos, pacifistas e militantes dos direitos humanos na França (onde os ideólogos da esquerda gostam de fazer cursos de pós-graduação) estavam denunciando a truculência do Estado brasileiro contra os desvalidos do campo. Claro, os governantes, civis, eleitos pela democracia, não queriam se parecer com os ditadores militares, que prendiam e arrebentavam quem descumprisse a lei. Não entenderam que sem respeito à lei não há democracia. O que fizeram? Houve quem, como no caso do Paraná, chegou a receber em Palácio alguns líderes dessas invasões, e depois os levaram para fazer palestra no Plenário da Assmbléia Legislativa. Parecia que queriam mais era aparecer nas fotografias ao lado de supostos heróis.
Os ideólogos do MST, que não são ingênuos, deram o viés do método e acertaram a jugular da elite governante, constrangida, de consciência pesada de sentimento de culpa pelo secular descaso para com a questão agrária. É só ler, na Biblioteca Pública, jornais do Império. Os conflitos pela divisão da terra no Brasil datam da Colônia.
Ilegal, mas legítimo. E não foi uma ação localizada, centrada na justiça social rural. Basta notar, por exemplo, o discurso do candidato do PT à Presidência da República, em 1994, quando foi flagrado usando o caminhão de som da Central Única dos Trabalhadores (CUT). Isso era proibido pela legislação eleitoral. É ilegal, mas é legítimo, disse Lula. Pronto! Em cima de uma coisa aparentemente ridícula, desproporcional (só porque usou um caminhãozinho de som), foi colocado em xeque o Estado de Direito. Podia ser um simples megafone e o favorecimento ilegal estaria configurado. E parte da mídia apareceu, levantou poeira, debates, e a coisa ficou por aquilo mesmo. Quer dizer, o candidato merecia ser processado, mas o processo demoraria muito, acabaria bem depois do término da eleição, a causa perderia o objeto.
Na base do ilegal, porém legítimo os empurrões continuaram. Das fazendas, produtivas ou não, isso nunca fez diferença aos invasores, passaram a invadir prédios públicos. Também não deu em nada. Era só para humilhar a classe governante perante a opinião pública. E parte da mídia, engajada, ali, fotografando no ato a defecada do galo na mesa de escritório de um ministério que não tinha nada a ver com o Incra. Vi as fotos, vi os rostos, não vi ninguém ser processado por nada, nem por dano ao patrimônio público.
As universidades, não vi nenhuma desmascarar essa orquestração (pudera, qual é a cor da ideologia dominante nas sinecuras acadêmicas?).
Não sei se deu para notar, mas essa história inaugurou uma nova instância na relação entre administração pública e administrados. Ou seja, se ainda não aconteceu nenhuma invasão, deixa quieto. Parece que certos assuntos não conseguirão jamais ser resolvidos pela lógica de suas circunstâncias, pela legalidade ou ilegalidade do pedido, mas, sim, só depois de uma ação extremista.
AULA DE RADICALISMO
O problema é que o extremismo obedece a uma metodologia (método + ideologia) que não tem limites éticos. Quer exemplos mais recentes? Lembre da campanha eleitoral do ano passado, para governadoria do Paraná. Na última semana antes das eleições, professores da rede estadual de ensino decidiram acirrar suas manifestações contra o governo, e tentaram invadir o prédio da Secretaria da Fazenda. Isso depois de terem agendado encontro formal com o secretário de Educação. Foram lá, levaram cinegrafistas a tiracolo, fizeram imagens à lá Tarantino, e divulgaram no horário eleitoral do PMDB, denunciando a truculência do governo (forçando semelhança com a cavalhada do Centro Cívico, em que professores se confrontaram com policiais militares, no governo peemedebista de Álvaro Dias).
Como dormir tranquilo quando professores praticantes do radicalismo estão lecionando nas salas de aula? Se ninguém consegue educar além daquilo que sente, como esses professores educam seus alunos?
A questão não é saber até quando esta República aguentará o estiramento de suas instituições, mas o que virá depois que essa última instância de radicalização se tornar insuportável. Outra quartelada?
- JOEL SAMWAYS NETO é procurador do Estado do Paraná e escritor em Curitiba, e está substituindo o jornalista Luiz Geraldo Mazza que está em férias





