Joel Samways Neto
Joel Samways Neto
Milênio do Diálogo!?
Os que nascerem daqui a 366 dias e um minuto, precisamente, serão pessoas do século 21; quem nasceu antes será visto por elas como gente do século passado. Isso pesa, não pesa? Ser do século passado significa ser agente do século 20, ator e portador da herança cultural com cem anos de acertos e equívocos.
Vacinas, laser, Internet, ônibus espaciais, estações orbitais, satélites, iridium, do que mais nós poderemos nos gabar perante os paridos a partir do primeiro minuto do próximo século? Certamente, e infelizmente, não será de valores éticos. Porque o nosso terá sido o século das guerras.
Ora, mas o século 20 não foi o século de Mohandas Gandhi? - os bebês do 3º milênio nos perguntarão. E enrubescidos de vergonha teremos que admitir que sim, e também que aprendemos muito pouco com o velho Mahatma. Aliás, nem seus contemporâneos e conterrâneosá - indianos, paquistaneses, muçulmanos - aprenderam. Tão logo desencarnou, assassinado, os conflitos étnicos ressurgiram fortemente, e perduram até hoje.
No contrapeso das revoluções científicas e tecnológicas deste século está a brutal intolerância. O mesmo ódio nacionalista que nos arrastou à 1ª Guerra Mundial, conforme denunciava, à época, Bertrand Russel, permaneceu, enraizando-se cada vez mais, ora manifestando-se a pretexto de liberdade econômica, ora a pretexto de autodefesa dos povos.
A intolerância ao heterogêneo, ao livre-pensar, às idéias diferentes, é o pano-de-fundo dessa nossa crise secular. A intolerância dos czares às afirmações do povo russo levou o povo russo à intolerância czarismo. Porém, os que sofrem os horrores da intolerância tendem a se tornar igualmente intolerantes (os oprimidos tendem a ser opressores, disse o Dr. Benjamin Spock). E os líderes da vitoriosa revolução russa tornaram-se intolerantes ao restante do povo, e criaram uma ferrenha burocracia.
Que dizer da intolerância ariana às outras raças? Foi uma das principais causas da 2ª Guerra Mundial. Depois vieram a Coréia, Vietnã... Tudo fruto da mesma intolerância que atualmente existe entre as várias etnias negras da África, onde negro mata negro a facão, resultando milhares de mortos em cenas que constrangeriam os piores carrascos nazistas.
Onde estava a tolerância entre sérvios, croatas e muçulmanos que compartilhavam a ex-Iugoslávia? Todos vimos a metodologia de guerra que eles aplicaram uns aos outros, com estupros coletivos e humilhações em campos de concentração.
Século do diálogo. Ditaduras, terrorismo covarde, armas químicas... É difícil encontrar, nesse inventário de ruindades, o que poderia sintetizar as mazelas da bagagem que nós, sobreviventes do século passado levaremos para o século 21. Será a cruz suástica? Será essa foto da Reuters, publicada no Estado de S.Paulo (29/12), na qual aparece um mural à frente de uma mesquita, com o desenho de Saddam Hussein, ajoelhado sobre um belo tapete, em posição de culto religioso, porém fardado, armado e de punhos cerrados?
Francamente, não sei se levaremos na bagagem pelo menos o gérmen do antídoto à intolerância: o diálogo.
Gandhi disse que quando um homem se perde, a humanidade inteira se perdeu um pouco, e quando um homem se alcança, a humanidade inteira se alcança um pouco. Quer dizer, somos todos humanos de uma mesma humanidade, de modo que não adianta querermos ver nos líderes mundiais a capacidade de dialogar que não temos em nós mesmos. A liderança é o espelho dos liderados, e vice-versa. Quantas pessoas já resolveram, internamente, seus preconceitos e passaram a aceitar mais as diferenças dos outros? Pois essa é a medida exata da mudança de atitude dos homens que administram as grandes questões do mundo.
Claro, temos alguns trunfos a nosso favor. Em que pese a barulheira dos órfãos do totalitarismo soviético, derrubamos o Muro de Berlim, o muro da vergonha, símbolo máximo da intolerância entre comunistas e democratas. E quem derrubou foi o povo, não os líderes da dialética do confronto, que caíram junto.
Isso significa que, no íntimo, a humanidade quer é dialogar. O potencial existe. Talvez o que esteja faltando é treinamento, exercício. Aquilo que Mikhail Gorbatchov soube, e sabe, fazer: expor, ouvir, responder, ouvir, propor, construir... Assim é que ofereceu ao Planeta as bases da chamada Nova Ordem Mundial - até o momento não muito bem compreendida. A grande mentira era insustentável, então Gorby propôs reestruturação, transparência, daí o que estava podre de mentiras simplesmente ruiu (os órfãos daquele comunismo o odeiam por isso).
Falar, em tom ameno, ouvir até o fim, responder, ouvir novamente, contrapor, propor. Esse tipo de exercício é capaz de salvar a humanidade, não só os casamentos em crise. Desde, obviamente, que o objetivo maior seja a busca da verdade - sem tingimentos ideológicos.
Se não soubemos dialogar corretamente, e com isso nos causamos tanto sofrimento, quem sabe se nossa predisposição interior, potencial, ao diálogo, nos permita aprender alguma coisa com os bebês do próximo milênio.
TRÉPLICA AO EQUÍVOCO
Ontem, nesta Folha, em seu espaço aberto, foi publicado um texto do sr. Robert Pontedura. Pró-Alex Canziani. A favor da troca que o deputado federal eleito fez: um assento na Câmara dos Deputados por uma secretaria de Estado.
Sua manifestação, publicada, demonstra que a imprensa é fórum de debates de idéias, palco da liberdade de expressão, como é próprio da qualquer democracia que se preze. Agora, é curioso o tom de ofendido que suas linhas trouxeram. Ofendido com as críticas lançadas na imprensa contra a tal decisão (uma delas feita por este colunista). Pede observância aos limites da boa educação e do respeito à pessoa.
Sem prestar atenção à estória da carapuça, porque todo homem público deve saber que está sujeito a críticas, aproveito o ensejo da réplica. Isso porque não escolhi somente agora o deputado eleito para criticar sua opção. Minha crítica a respeito desse assunto vem de outros jornais. Sempre fui contra essa história de um cidadão se apresentar ao eleitorado como candidato a um determinado cargo eletivo, fazer uma porção de promessas vinculadas ao exercício desse cargo, ser eleito por ser a pessoa que é e pelas promessas que fez, e, de repente, abdicar do mandato popular no Poder Legislativo em troca de um cargo no Poder Executivo. Essa crítica foi feita, anteriormente, contra a atitude de Reinhold Stephanes, entre outros, e vale contra a atitude de Canziani, tanto quanto a de Rafael Greca ou a de Sérgio Spada.
A questão é simples: ou o candidato era candidato ao que dizia ser candidato, ou não era. Se era, por que agora diz que não é mais? Se não era, por que dizia que era? No mínimo, pela falta de clareza, se não foi o candidato quem cometeu um engano em relação às regras do jogo democrático, então foi o eleitorado. Quem deve respeitar quem?
Remendo novo, vestido velho. A maior contradição: o referido texto ter dito que o jovem político fez algo que outros políticos também fizeram e fazem. Ora, ora. Quem é mesmo agente do novo não repete os equívocos do velho, revoluciona-os - e paga o preço disso.
- JOEL SAMWAYS NETO é procurador do Estado do Paraná e escritor em Curitiba, e está substituindo o jornalista Luiz Geraldo Mazza que está em férias





