Joel Samways Neto
Joel Samways Neto
Cristo & comércio
Claro que não se deve esperar que um artigo de opinião vá mudar o mundo. Uma coluna só não faz revolução. Todavia, sendo antes um exercício de liberdade de expressão, as idéias precisam ser ditas, ainda que tenham de nadar contra a corrente (pois, afinal, quem não nada contra corrente é peixe morto). Assim, todos os anos, nesta época, trato de escrever minha crítica ao sistema de consumo que invadiu o 25 de Dezembro. Crítica suave, porém firme.
Da primeira vez, disse que o Natal é a data espiritual mais materialista do nosso calendário - pelo menos, do calendário de um terço da humanidade, feito de cristãos. Para esse um terço, 25 de dezembro é o dia do aniversário de Jesus, filho de José. Tudo bem que é uma data convencional, que não é exatamente o dia certo, que não há registro de nascimento (os cartórios não tinham essa força toda que têm hoje em dia). Aproveitaram a data do solstício, início do declínio do inverno, as festas populares e religiosas de alguns povos que celebravam os efeitos do fenômeno climático, as promessas da primavera etc. Historicamente, uniram uma data muito importante ao nascimento de alguém muito importante.
Segundo alguns pesquisadores, foi também por causa dessas festas populares que o Natal foi se tornando comercial e comercializável. Porque algumas dessas festas (inclusive porque celebravam casamentos, que as pessoas preferiam realizar nesse período do ano) implicavam doação ou troca de presentes.
Não tenho nada contra a circulação da riqueza. Disso depende a saúde da economia de um país. Tem de haver consumo para a indústria continuar produzindo e os comerciantes continuarem vendendo, e os empregos serem mantidos. Oponho-me é à invasão comercial do território espiritual. Um verdadeiro esbulho possessório. Até o líder dessa invasão, o personagem Papai Noel (em que pese a história de Santa Klaus), é fora de contexto. Note: o Brasil, um país tropical (certo, menos Curitiba, que tem feito inverno nesses dias), com extensíssimas praias, de repente recepciona o personagem encasacado, de vermelho (para chamar bem a atenção), impondo às vitrines um cenário de neve, gelo, europeus. E na mídia - consequentemente nos corações e mentes da massa - o espaço, se contado em minutos, está desproporcionalmente mais vantajoso ao senhor do trenó e das renas.
Agora olhe a reação das pessoas em geral. A correria da véspera, a sanha de presentear, as lojas lotadas, os estacionamentos entupidos, o stress, a responsabilidade de banquetear na ceia. Nessa esteira vem também o estímulo ao exagero na alimentação, na bebida (obviamente, não dos brasileiros à mercê da subnutrição).
JOSHUA BAR YOSSEF Jesus, sua exemplificação, suas idéias, não é nada disso. É o exemplo da simplicidade, do despojamento, da frugalidade, do equilíbrio. É o homem cósmico que fez sua vida crística. Tão forte a mensagem, vivida, não escrita, que nem dois milênios de tempo, de traduções, de versões, lhe anularam a essência: o amor a Deus, o amor ao próximo.
Aborrece ver essa competição entre o consumismo e o espiritualismo. Mesmo que este não seja suplantado por aquele. É perceptível que a atmosfera do Planeta Terra se altera nesta época do ano. Com todo o apelo ao imediatismo, ainda assim o espiritual prevalece. Basta notar a maioria dos lares. Cada família, a seu modo, conforme sua religião, cultivando a reflexão em torno da palavra do Cristo - isso muda o clima doméstico. Isso ajuda a mudar o clima social. Pelo menos nestes dias.
Penso como seria valioso se houvesse mais espaço a essa reflexão crística. Como seria importante se houvesse um tempo maior para a prece, para o diálogo construtivo a respeito da moral cristã. Evidentemente, é necessária uma grande dose de coragem para fazer isso. Imagine as pessoas, familiares, que brigaram, não se falaram o ano inteiro, de repente refletindo sobre o perdão, sobre o esquecimento das ofensas, sobre conciliação, paz. Isso mexe a ponto de quase constranger. Mas é a força da proposta de Cristo, do chamamento à fraternidade universal, à paz, à boa-vontade.
Independentemente de a pessoa ser católica, protestante, espírita, desde que sua religião seja cristã, o dia 25 de dezembro bem que merecia melhor aproveitamento. Mais meditação, mais prece, mais avaliação, autocrítica. Até para lembrarmos de que o processo civilizatório que estamos construindo, historicamente, deve caminhar na direção da evolução do espírito.
O DIA DO COMÉRCIO Nessa razão, sempre defendo, solitariamente, a instituição de um dia do comércio, ou um dia do consumo, um dia dos presentes. Seja lá o que for que transferisse o consumismo salutar (?) para uma outra data qualquer. Tenho certeza de que com os recursos de marketing isso não seria problema para indústrias e empresas. Haveria compras, haveria almoços e jantares, haveria louvação a Papai Noel e seu trenó. E as pessoas teriam seu momento de ilusão preservado.
Ao menos, preservando-se a data espiritual do nascimento de Jesus, o choque de desigualdades sociais também seria transferido. E os que têm muito não teriam de se constranger pela situação dos que têm tão pouco, comemorando à tripa forra num dia em que o homenageado principal propõe repartir, compartilhar.
À parte essas considerações, aproveito este espaço para desejar paz e saúde ao leitor, agradecendo-lhe a generosa atenção.
NOSSOS SÍMBOLOS A Lei Complementar nº 52/90, que trata dos símbolos oficiais do Paraná, estabeleceu a obrigatoriedade de se ensinar o desenho e o significado da Bandeira Estadual, e o canto do Hino, em todos os estabelecimentos de ensino de primeiro e segundo graus. A escola está cumprindo, Sr. secretário de Educação? Experimente perguntar a um adolescente qual é o Hino do Paraná, e veja se ele por acaso canta: Entre os astros do Cruzeiros/ És o mais belo a fulgir/ Paraná! Serás luzeiro!/ Avante! Para o porvir!...
Mais fácil será ele cantar: Meu Paraná, meu tricolor,/ Eu sou a camisa 12 etc., com o coro em volta gritando: Pen-ta-cam-pe-ão! Pen-ta-cam-pe-ão!. Para constar: a música do nosso Hino Estadual foi composta por Bento Mussurunga, e a letra é de Domingos Nascimento.
Espero que os professores que amam o nosso Estado insistam e rompam a inércia, saindo em defesa de nossa cultura, de nossos valores, de nossos símbolos. Disso depende nossa identidade regional.
MINISTRO PARANAENSE
O ministro do Esporte e Turismo, Rafael Greca, poderia ser visto como prestigiamento do governo federal ao Paraná. Porém, seus eleitores hão de recordar de suas promessas de campanha, dizendo que iria ilustrar o Congresso Nacional, que seria um tribuno incansável na defesa do nosso povo. Os que votaram nele, e esperavam vê-lo e ouvi-lo na tribuna do Parlamento em Brasília, devem estar decepcionados. O pacto democrático, também.
- JOEL SAMWAYS NETO é procurador do Estado do Paraná e escritor em Curitiba, e está substituindo o jornalista Luiz Geraldo Mazza que está em férias





