Joel Samways Neto
Joel Samways Neto
A alma paranaense
A luta pelo poder tem levado os partidos políticos a sofisticar suas ferramentas de trabalho. E sendo a persuasão sua atividade primordial - ou seja, convencer que sua doutrina, suas propostas, são as melhores - é nesse processo que a sofisticação mais se intensifica.
Com tantos recursos disponíveis - de eletrônica, de telecomunicações, de informática, de sociologia, de psicologia social, de linguística, de comunicação social etc. - os partidos necessariamente não precisam mais buscar o cultivo de lideranças autênticas. Hoje, faz-se qualquer liderança, no sentido de que se pode construir a imagem, o discurso, o papel, o ator, o personagem do líder.
Acontece a mesma coisa quando o partido político conquista o poder, quando seu candidato é eleito. Imediatamente, o grupo que assume os cargos trata é de cuidar da manutenção. Tudo é meticulosa e estrategicamente costurado, arranjado, acertado. Porque ninguém é bobo nem nada. O partido que perdeu a eleição ficará à espreita, vigiando todos os passos, atos e fatos dos vencedores, preparando o argumento para a revanche das eleições seguintes. Então, o partido, ou os partidos, que estiver(em) na gerência do poder, toma(m) as cautelas e investe(m) o que pode(m) (e, às vezes, até o que não podem) no setor da comunicação social, na publicidade e propaganda oficiais. Do êxito desse trabalho dependerá a permanência do governo no hit parade da preferência popular.
E até o advento da nova Constituição da República do Brasil, de 1988, a administração governamental era abertamente personalizada, nominal. O governante punha o nome, o retrato, a impressão digital em tudo o que fazia - e divulgava suas obras com essa mesma. Lógico que, com o peso da máquina administrativa, e do Tesouro Público, o jogo democrático ficava desigual. Não havia partido que pudesse competir com a capacidade do governo em popularizar seus agentes e suas idéias.
A Constituição de 88 veio trazer a novidade da restrição ao abuso que corria solto. Estabeleceu que a publicidade oficial tem que ter caráter educativo, informativo ou de orientação social, dela não podendo constar nomes, símbolos ou imagens que caracterizem promoção pessoal de autoridades ou servidores públicos (Artigo 37, inciso XXI, parágrafo 1º).
De início, a nova norma constitucional prometia moralizar o processo. Todavia, com o passar do tempo, os partidos políticos na gerência do poder descobriram que os órgãos controladores (tipo Ministério Público, Tribunal de Contas, os outros partidos, a sociedade civil organizada) não entediam lhufas das sutilezas da comunicação social. Daí começaram a se valer de logomarcas, de signos, envolvidos em programas de divulgação que funcionam melhor do que o próprio nome do governante para popularizá-lo. É o efeito semelhante ao que os mentores intelectuais da comunicação social do nazismo - chefiados por Gobbels - produziam, na Alemanha dos anos 30. Bastava o sujeito olhar a cruz suástica e imediatamente lhe vinha à mente idéias, personagens, atitudes, enfim, o filme inteiro da propaganda hitlerista. Essa associação acontece até hoje, só que juntamente com os horrores daquele período histórico.
O que fazem os comunicólogos e marketólogos da política? Fazem uma publicidade oficial repleta de símbolos. A promoção pessoal ocorre dissimuladamente.
ALMA COLETIVA O problema é que o abuso de logomarcas, signos, símbolos, tem causado um efeito ainda mais perverso do que o do sistema antigo, quando os políticos usavam o próprio nome. Porque nome é nome; qualquer pessoa sabe distinguir um nome de pessoa do nome, por exemplo, do Estado ou do município onde ela mora. Agora, os símbolos não. Os símbolos parecem disputar um espaço diferente no imaginário popular, na mentalidade coletiva. Eles se superpõem.
Isso significa que essas logomarcas, símbolos e signos de grupos de governo, ligadas a determinados partidos políticos, estão competindo com os símbolos históricos, institucionais, das entidades federativas (União, Estados e municípios). E efetivamente tomando mais espaço do que podiam, deviam ou mereciam.
Esse conflito entre símbolos de partidos políticos no governo e os símbolos institucionais (nacionais, estaduais ou municipais), é um conflito entre o transitório e o permanente. Governos mudam, ou podem mudar, a cada pleito. Já os entes político-administrativos, as entidades federativas, não. Estes nascem, crescem, desenvolvem-se, amadurecem, fazem história de permanência.
Será muito difícil notar a diferença de valor entre uma pessoa dizer sou do partido tal e ela dizer sou paranaense, sou brasileiro, sou cascavelense?
A força dessa unidade interpessoal, construída a partir da identidade cultural que as pessoas têm umas em relação às outras, e todas em relação a valores como país, cidade, terra, família, é mais intensamente notada quando se está diante de algum desafio. Brasileiro em tempo de Copa do Mundo é um; fora da Copa, é outro.
O espírito de corpo emerge nas ocasiões de desafio, unindo os integrantes dos grupos desafiados, identificando-os a uma causa ou objetivo comuns a todos.
NOSSOS SÍMBOLOS Os partidos políticos na gerência do poder deveriam usar mais amiúde os símbolos oficiais. O Estado do Paraná, por exemplo, tem seus símbolos oficiais descritos pela Lei Complementar 52, de 1990. Está lá a descrição da Bandeira, do Brasão das Armas, o Hino e o Sinete, candidatos ao esquecimento.
A Bandeira Estadual tem mais de cem anos! Claro, foi um pouco modificada, mas a concepção original tem sido respeitada deste 1892. Infelizmente, creio que é mais fácil um cidadão paranaense descrever a logomarca do partido político que gerencia o poder - a bandeirinha estilizada - do que a Bandeira do Paraná. E daí? E daí que isso revela um brutal descuido com a identidade cultural-regional, um enfraquecimento da alma coletiva paranaense.
Uma sociedade com pouca identidade cultural, com alma coletiva enfraquecida, é uma sociedade em que as pessoas são mais individualistas. Logo, é uma sociedade onde a competição é excludente, na qual a solidariedade não tem vez.
Amor à terra da gente, amor à gente da gente, amor às coisas da gente, isso ninguém cria por decreto - e muito menos com recursos de publicidade sofisticada. Isso tem a ver com a história compartilhada, com o cultivo da cultura e seus símbolos. É uma identidade espiritual.
Como pode um governante pensar, por exemplo, em segurança pública, se o povo não se une? Como imaginar uma campanha de combate às desigualdades sociais sem que cada cidadão se doa um pouquinho pelos outros? Onde encontrar entusiasmo na população para contar com sua parceria em qualquer empreitada? Nos slogans? Nos desenhos estilizados?
Os símbolos oficiais do Paraná representam a permanência da unidade regional, feita do passado comum, do presente compartilhado e da expectativa de futuro do povo paranaense.
- JOEL SAMWAYS NETO é procurador do Estado do Paraná e escritor em Curitiba, e está substituindo o jornalista Luiz Geraldo Mazza que está em férias





