Também em política os usos muito repetidos viram costumes. E costumes, quando muito insistidos, recorrentes, tornam-se valor e bagagem da tradição. E a tradição legitima condutas. São dados sociológicos.
O problema começa quando a tradição cria acomodação na mentalidade social. Quando as pessoas passam a dizer ‘‘foi sempre assim’’, ‘‘isso não muda nunca’’. Nesse momento, a tradição se transforma num dos maiores obstáculos ao processo civilizatório, transforma-se em ferramenta reacionária.
Em política acontece disso, também. Note este fato, comum, de os políticos contrariarem as mais elementares expectativas do seu eleitorado. Eles se lançam candidatos a legislador (vereador, deputado estadual, federal ou senador). Saem nas campanhas prometendo mundos e fundos, gastando voz e saliva com sonoros discursos a respeito da nobreza da função parlamentar - e de como, e por que, eles seriam os mais indicados a representar o povo. Daí se elegem. São diplomados e coisa e tal. Porém, a dias de tomarem posse no cargo eletivo de parlamentar, são escolhidos para exercer cargo político, de primeiro ou segundo escalões, no Poder Executivo. E aceitam!
O eleitor, lógico, fica com cara de tacho, olhando ora para o sorridente candidato eleito, ora para sua cédula eleitoral. Ora, ora. O então candidato levara seu voto porque prometera legislar neste ou naquele sentido, favorecendo esta ou aquela causa, defendendo este ou aquele princípio. Por isso recebera voto. E foi eleito com mandato de pelo menos quatro anos para mostrar o serviço, para cumprir o prometido. Foi eleito para ser fiscal dos atos do Poder Executivo, com poderes outorgados pelo eleitor, e depois ‘‘renuncia’’ ao mandato para assumir o papel de fiscalizado!?
Alguns dizem que esse fenômeno é da tradição da política brasileira. Exemplo típico de quando a tradição é contradição. O insólito, o surpreendente, é quando o candidato eleito cumpre seu mandato até o fim.
ALTRUÍSMO OU EGOÍSMO Difícil se saber se essa troca de papéis convém mais ao eleitorado, ou não. Às vezes, funciona. Note o exemplo do ex-ministro da Previdência Reinhold Stephanes. Das últimas vezes em que esteve ministro, era deputado federal. Ou seja, tinha feito campanha eleiçoeira para ser deputado, tinha feito promessas que cumpriria como deputado, e por isso se elegera. Porém, como especialista de área em matéria de previdência social, raramente esquentou o banco de deputado. Logo era chamado a servir - e de maneira competente - ao ministério.
Stephanes não foi eleito nesse último pleito, decerto porque o eleitorado entendeu que não fazia sentido eleger um deputado que não seria deputado, seria ministro. E para ser ministro não é necessário ser titular de cargo eletivo. Ou o eleitorado cansou de escolhê-lo e depois decepcionar-se - do ponto-de-vista parlamentar - ao vê-lo deixar a Câmara dos Deputados e dar lugar ao suplente. Suplente é suplente porque não teve preferência suficiente do eleitorado.
Agora temos o deputado federal eleito Alex Canziani (PTB), de Londrina. Fora escolhido por quase 75 mil eleitores do Paraná. Para ser deputado, legislador, para desempenhar funções legislativas, legiferantes, fiscalizadoras, na Câmara dos Deputados e no Congresso. Mas acabou aceitando um convite do governador Jaime Lerner para ser secretário de Estado.
A indagação primeira não é sobre se o Sr. Canziani será, ou não, um bom secretário de Estado (espero que o seja, para o bem do Paraná). A questão é: como é que fica o pacto democrático? O candidato se apresentou ao concurso eleitoral, prometeu, comprometeu-se, elegeu-se. Indiscutivelmente, ao se deslocar do Legislativo para o Executivo, não cumprirá seus promessas (ao menos, as promessas cujo cumprimento pressupõe mandato parlamentar).
Raciocinando à luz do direito do consumidor, seria o mesmo que o comprador comprar um produto e receber outro. Claro, há sempre a chance de o outro ser melhor - mas também há chance de não ser, e o comprador ficar decepcionado. Infelizmente, só nas relações comerciais a troca pode ser destrocada.
Correligionários do partido de Canziani, como a família Belinati, disseram nesta Folha, ontem, que a secretaria de Estado foi aceita para que o PFL pudesse ter mais um deputado em Brasília. É possível que seja verdade. Se for, o altruísmo do cargo parlamentar - outra tradição política - terá ido para a Cucuia. (Prova de que tradição pode ser rompida, sim senhor).
SÍMBOLOS DO PARANÁ Curiosa a primeira página da Folha, ontem. Uma foto enorme do governador, e, como cenário de fundo, a parte de um enorme cartaz da logomarca da equipe de governo - a bandeira do Estado, estilizada, com a legenda ‘‘Governo do Paranᒒ, sendo que o acento agudo é estilizado numa folha verde, igualmente estilizada.
Tenho falado sobre essa utilização de símbolos de grupos partidários na gerência do poder, desde as ‘‘casinhas’’, logomarca feita com o ‘‘A’’ de Álvaro Dias. Está certo que o administrador público tem o direito de pôr seu nome nas obras que realiza. Afinal, foi ele que fez, então merece dar nome à coisa, merece encabeçar a lista de autoridades da tal placa de bronze. Mas isso é diferente da propaganda generalizada, totalizante, que espalha logomarca de governos transitórios por todas as paredes de prédios públicos, nas portas de veículos públicos (ou terceirizados, mas a serviço público), em faixas, cartazes, slogans, outdoors, vinhetas, curtas-metragens, tudo. Isso é um brutal desserviço à cultura paranaense - será que ninguém vai acolher essa denúncia?
O Paraná tem seus símbolos oficiais, criados por lei. O Paraná, enquanto pessoa jurídica de direito público, é um ente permanente. O governo é transitório. Nem que fique na gerência durante um, dois, três mandatos consecutivos. O que é do Estado é do Estado; o que é do governo é do governo.
Esse massacrante marketing político - cuja intenção parece ser a de fazer da logomarca de governo uma griffe - está contribuindo para aumentar a falta de identidade entre o povo paranaense e o Paraná. Estão brincando com coisa séria!
Por que a imprensa não vai ouvir os estudiosos de psicologia social, sociólogos, especialistas em semiótica? A universidade continua calada, incapaz de referenciar qualquer reflexão emancipatória sobre o paranismo. Resta à imprensa a responsabilidade de não deixar morrer, por inanição, o vínculo entre o paranaense da gema e os símbolos de sua terra.


ENGRAÇADO
O governador é arquiteto, portanto essencialmente um artista. E artista é uma pessoa que tem sensibilidade mais aguçada. Como não consegue perceber que essa enxurrada de logomarca precisa ter limite?
Ordem e progresso, segurança e bem-estar, são valores que não se conquistam por decreto. São estados de alma coletiva, coisa que se alimenta de identidades culturais.
Voltarei ao tema.

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