Joel Samways Neto
É conceitual que a universidade esteja estruturada num tripé: docência, pesquisa e extensão à comunidade. Conceitual, tudo bem, mas é prático, é operacional, é útil? Claro que sim, e os exemplos dessa utilidade são inúmeros - a começar dos hospitais-escola, do atendimento odontológico, assistencial-social, escritórios-modelo jurídicos etc. Há amplos segmentos da população indiscutivelmente assistidos pela extensão universitária. A pergunta remanescente, no entanto, é no sentido de se saber se isso é o bastante.
Pessoalmente, não consigo sentir a presença da universidade na discussão de outros problemas brasileiros, desses que têm a ver com deficiências na mentalidade social.
Sim, nota-se a efervescência intramuros, com a comunidade acadêmica tendo à disposição um leque de cursos, seminários, congressos, conferências, dentro de todas as áreas de conhecimento. Porém, raramente surge algo oferecido também aos cidadãos comuns, que os informe acerca de seus direitos, de suas possibilidades, de seus zelos.
Obviamente, a imprensa desempenha importante papel na divulgação das descobertas, invenções, criações, inovações, ocorridas dentro da universidade. Mas a imprensa tem limite de espaço - e, no mais das vezes, dependendo do assunto, não consegue ir além da mera instigação da dúvida ou do interesse do cidadão.
Por exemplo, amanhã está previsto que a Assembléia Legislativa irá votar o projeto de lei que obrigará os proprietários de veículos licenciados no Estado a implantar um chip, um dispositivo para coleta de informações. O que adianta só a imprensa trabalhar com o fato? É evidente que os deputados estaduais favoráveis ao negócio se manifestarão a favor; e os contrários, contra. Igualmente, os empresários que se beneficiarão com o sistema (ou porque produzirão o dispositivo e seus acessórios, ou porque reduzirão seus custos operacionais com ele), dirão que o negócio é bom e não ofende as liberdades individuais e públicas. A sociedade precisa mais do que isso.
Por que os cursos de Direito já não promoveram debates sobre o assunto abertos à comunidade? Temos, só em Curitiba, quatro cursos de Direito reconhecidos e um ainda não reconhecido. Por que os professores e os alunos não tiveram a idéia de pesquisar o tema, levantar questões, e vir dialogar com a comunidade, propondo soluções? A imprensa já começou a escarafunchar a possibilidade desse projeto ter sido criado para beneficiar principalmente as praças de pedágio. Ora, ora. Qual é o limite de escravização da sociedade ao capital? Até que ponto o cidadão deve ficar submetido a lances da ideologia de consumo?
Debate multidisciplinar. Esse debate não é apenas jurídico, não. É filosófico, é sociológico, é político, é histórico. A mim me espanta a tranquilidade com que um representante do povo, eleito legislador ou governante, consegue manipular valores essenciais do ser humano. Dá a impressão que, em certos momentos, a Casa de Leis, a Casa do Povo, transforma-se num acerto entre amigos para locupletar seus amigos.
Então, nessa hora a universidade deveria comparecer e dizer: Presente!. E defender princípios, elucidar, educar.
De repente, a única movimentação realmente extensiva à comunidade, vinda do seio universitário, são as passeatas de estudantes em protesto contra violações aos interesses de sua classe, ou greves de professores em protesto pela defesa dos seus interesses. Movimentação chata, diga-se, porque frequentemente acontece com invasão a direitos de terceiros (como quando resolvem bloquear ruas ou invadir prédios públicos).
Se os parlamentares sentem essa desenvoltura em tratar - levianamente - os valores essenciais da pessoa humana, isso significa que estão respaldados pela mentalidade social. Isto é, foram eleitos porque tiveram eleitores que sabiam, ou deveriam saber, quais eram suas idéias, suas propostas, sua visão-de-mundo.
A mesma atenção merece outras leis, já criadas e apenas aguardando sanção governamental. A lei que estabeleceu a possibilidade de um cargo de cartorário ser preenchido por remoção sem concurso, a lei que criou condições de os cargos de diretoria da Receita Estadual serem ocupados por gente que não é dos quadros funcionais da Fazenda. Essas e outras mais. E o caso não é tanto o fato de essas leis terem surgido, mas como puderam ter surgido.
IMPARCIALIDADE CIENTÍFICA Não devíamos estar assistindo a conferências públicas, promovidas pela universidade, a respeito das reformas constitucionais? Não um discurso de partido político, recheado de ideologia nem tampouco um discurso pseudo-acadêmico, também recheado de ideologia. Refiro-me a um conhecimento real, crítico, imparcial, que sopese prós e contras, e que permita ao cidadão comum opinar com mais segurança - sem ser a vítima de sempre dos slogans e das palavras-de-ordem da militância política.
Tem muita gente se queixando da reforma previdenciária. Agora, criticamente, analiticamente, cientificamente falando: o Brasil poderia continuar do jeito que estava? Estamos vendo, neste momento, a França se assustar com os resultados dos cálculos atuariais do seu déficit previdenciário. Em menos de dez anos, se os franceses não tomarem providência, seu país estará pior do que o nosso. Portanto, vamos pensar, vamos refletir, vamos construir nossa opinião de maneira mais consistente. E a universidade não pode deixar de participar desse processo, porque simplesmente esse processo não pode acontecer sem ela.
MARKETING DA CARIDADE Assisti, pela primeira vez, à propaganda de uma marca de guaraná envolvendo a Fundação Ayrton Senna. Parece que a cada unidade de produto vendida, um percentual do preço será destinado às obras sociais da Fundação. Daí, aparecem adoráveis crianças, com olhares irresistíveis, segurando latinhas de refrigerante e pedindo que o consumidor consuma. Francamente, por mais que se acredite no excelente trabalho da Fundação Ayrton Senna, administrada pela irmã do piloto, Viviane, não sei se essa era a forma adequada de pedir auxílio. É uma espécie de marketing da caridade. Não que essas poderosas indústrias não devessem ajudar. Devem. Mas penso que a divulgação deveria ser mais discreta. Do jeito que está, ficou igualzinho aos apelos escandalosos tipo chantagem, para que os filhos aterrorizem seus pais até eles comprarem esse ou aquele brinquedo.
Se a ajuda é um ato de solidariedade, fundado na consciência da fraternidade universal, pode-se dizer que o ato caritativo é cristão. Se é cristão, vale a referência de Jesus: Que a vossa mão esquerda não saiba o que dá a vossa mão direita. Nesse marketing da caridade, as mãos estão sendo esfregadas uma na outra, sabendo tudo o que está acontecendo.





