Joel Samways Neto
Joel Samways Neto
As guerras do mundo
Depois da última ameaça de conflito entre o Iraque e a Organização das Nações Unidas (ONU), finalmente a operação Tempestade no deserto - a Guerra do Golfo - foi reeditada, e renomeada para operação Raposa do deserto.
Na prática, a publicidade e o poder de fogo são as únicas diferenças entre todas as guerras vigentes no mundo e o ataque perpetrado pela ação conjunta EUA-Inglaterra contra Bagdá. Todas as guerras do mundo são iguais. Todas vitimam inocentes. Todas são patrocinadas pela maior indústria do Planeta Terra: a armamentista. Ou será que o monumental volume de dinheiro investido na indústria bélica tem como objetivo agradar a colecionadores e adornar vitrines de museus?
O maior investimento poderia estar sendo feito na fabricação de medicamentos, ou na democratização do processo ensino-aprendizagem, ou na construção de casas... Poderia, mas não está. Essa indústria fabrica armas para que sejam usadas, nem que seja preciso arranjar, instigar e municiar conflitos étnicos, geopolíticos ou religiosos. E na beirada desse fenômeno, vai armando também a sociedade civil, amedrontada com o armamento do crime organizado ou ocasional.
INTOLERÂNCIA Bem ponderadas as razões da ONU em relação à renitência de Saddam Hussein - que teima em impedir a inspeção internacional em seus arsenais - a conclusão inicial é de que, novamente, o diálogo foi atropelado pela força. Prova de que a temperatura e a pressão da mentalidade coletiva mundial melhorou muito pouco em termos de tolerância, neste século - aliás, denominado, com justiça, de século das guerras (de tanta guerra que temos tido; contrariamente ao que ocorria antigamente, quando havia poucas guerras, embora pudessem durar séculos).
Rigorosamente, o ódio que anima uma guerra como essa, no Golfo Persa, é o mesmo ódio verificado entre motoristas de trânsito que se envolvem em colisões, raspões e bate-bocas. Emerge, nesses momentos, aquele desejo de matar, mentalmente difícil de controlar, mas que na concretização da ação, felizmente, a maioria consegue se conter. Desgraçadamente, e decerto por causa dessa mentalidade engatilhada, ainda há muita gente que transita com revólver no porta-luvas; gente nervosa, estressada, que à menor barbeiragem é capaz de causar uma tragédia social. O diálogo, via de entendimento e de indenização, fica em segundo plano. Isso é corriqueiro nas ruas e nos lares - fatos notórios para quem está acostumado a acompanhar a crônica policial.
Claro que está errada a determinação de Saddam fabricar armas químicas e bacteriológicas, conforme suspeitam os inspetores da ONU. Um arsenal dessa natureza, aliado ao fanatismo religioso fundamentalista, não deixará a humanidade dormir tranquila. Todavia, é lamentável que, em pleno final do século 20, depois de os seres humanos terem amargado a dor de duas guerras mundiais, e outras, mais setorizadas, algumas civis, ainda tenhamos que testemunhar a violência como instrumento de convívio entre países.
Agora, é oportunismo barato argumentar, como alguns têm feito, que o presidente dos EUA bombardeou Bagdá só para postergar seu processo de impeachment, desviando a atenção da opinião pública norte-americana. A teimosia arrogante de Saddam tem criado problemas desde agosto de 1990.
A BANANA DE BÓRIS O âncora de telejornal Bóris Casoy não se conteve, no início desta semana, quando noticiou a tentativa de os parlamentares aumentarem cerca de 50% seus salários. Estendeu os braços e fez uma enfática banana diante das câmeras. Foi a melhor crítica do ano de 1998. Mediunizou a intenção de todos os brasileiros razoavelmente informados sobre o assunto.
Estamos no meio de uma crise seriíssima, com o Brasil se preparando para enfrentar graves turbulências, pelo menos nos próximos seis meses. Há um esforço imenso de o País se ajustar às medidas propostas pelos órgãos de auxílio internacional. São as reformas constitucionais que precisam cortar privilégios, e, inclusive, benefícios que até seriam justificáveis, porém não neste momento.
Então, o povo fica tentando digerir aumentos de tributos, redução do limite dos proventos de aposentadoria, aumento do tempo de contribuição etc., e exatamente os representantes do povo, nos parlamentos brasileiros, movimentam-se para articular aumentos salariais.
Porque o Poder Judiciário pretende fixar um teto salarial de R$ 12.800, aí os servidores públicos eleitos do Poder Legislativo vêm dizer: Se eles podem, nós também queremos. O que, obviamente, fará com que os servidores públicos do Poder Executivo digam: Se eles querem, por que não nós? Isso criará o famoso efeito cascata, e lá se vai o Tesouro Público cascata abaixo.
As revoluções começam assim, com as elites desfrutando da abundância diante da escassez da população em geral. E o quadro se torna mais insuportável quando o desfrute é protagonizado por aqueles nomeados para prestar serviço público, pagos com dinheiro público.
Essa gente precisa saber com quantos pobres se constrói um rico. Antes que acirrem ódios fáceis. Ajam rápido, pois o tamanho da desigualdade é medido com um mero cálculo aritmético, dividindo R$ 12.800,00 por R$ 130,00.
O CHIP INDISCRETO O deputado estadual Ricardo Chab está lutando para salvaguardar a privacidade do cidadão do Paraná. A caixa de surpresas da Assembléia Legislativa está tentando aprovar uma lei que obriga a implantação de um chip nos automóveis, permitindo seu total monitoramento. As autoridades do setor poderão saber, por exemplo, como disse o deputado Chab à Rádio CBN, ontem, a que horas o cidadão entrou e saiu do motel tal - e mais o risco de ter sua vida cotidiana mapeada, o que facilitaria demais a ação de criminosos que eventualmente se associem a policiais desonestos.
O deputado Ricardo Chab merece apoio integral da população paranaenses. Escrevam, telefonem, telegrafem, enviem fax, e-mail... A votação da emenda do deputado, para que só a frota de veículos do poder público seja chipada, deve acontecer semana que vem.
EM TEMPO
Finalmente, Conselhos Tutelares da Região Metropolitana da capital resolveram aplicar as normas do Código Penal e do Estatuto da Criança e do Adolescente. Retiraram das ruas do centro de Curitiba crianças que estavam sendo exploradas por seus pais, ou por terceiros, para pedir dinheiro. Quer dizer, lei para coibir esse tipo de exploração existe, mas precisa que as autoridades competentes as executem.
SUGESTÃO DE PAUTA
A imprensa deveria indagar o presidente da Associação Paranaense do Ministério Público qual é exatamente a opção ideológica do chamado Ministério Público Social. Basicamente, porque opção ideológica não combina com a objetividade e a imparcialidade desse órgão do Poder Executivo, previstas na Constituição; e seu custo institucional e operacional é suportado por contribuintes de todas as ideologias.
- JOEL SAMWAYS NETO é procurador do Estado do Paraná e escritor em Curitiba, e está substituindo o jornalista Luiz Geraldo Mazza que está em férias





