Joel Samways Neto
Era 1979, o País vivia sob regime autoritário, aos trancos, pacotes, decretos-leis e com o Congresso pressionado. Na Universidade Católica do Paraná (ainda não era pontifícia), fazia palestra aos acadêmicos de Direito o professor de Direito Internacional Celso Albuquerque Mello. Com uma dicção diferente, que lhe dava um quê de sotaque estrangeiro, derramava saber sobre a platéia. E lá pelas tantas, criticando o senso crítico nacional, disse: O problema, no Brasil, é que quem lê jornal se considera intelectual; e quem lê a revista Veja, se considera erudito!.
Claro que a questão não é ler ou não ler jornal ou revista. A questão é ler ou só jornal, ou só revista, ou somente ambos. Porque são veículos de comunicação de mensagens ligeiras e ultraligeiras, que vivem a permanente crise entre informação e espaço de informação. Obviamente, são de leitura indispensável para quem quer viver a contemporaneidade. Mas a formação do senso crítico, da opinião, exige, além de notícias, referências e reportagens, a reflexão densa, profunda, feita de leitura de livros.
O que é que mudou, vinte anos para cá? A censura foi abolida, o regime abriu, flexibilizou, fez a transição democrática, o brasileiro teve restaurado seu direito político... Todavia, e o senso crítico? E sua relação com jornais e revistas? Aparentemente, continuamos à mercê de leituras rasas. A cronologia histórica brasileira tem fragmentação semanal. O que as revistas Veja, IstoÉ, Época, Carta Capital dirão na semana que vem? O assunto da hora, da capa, do destaque, delimitará o pano-de-fundo de quase tudo o que os programas de rádio, de televisão, os radiojornais, os telejornais e os jornais tratarão.
MANOBRAS E a classe política entendeu isso faz tempo. Manipula do jeito que quiser o psicossocial, o clima dos acontecimentos. Libera determinadas informações bombásticas, em doses homeopáticas, no momento exato. Daí, uma semana é a revista Veja que dá o tom. Depois, a Época. Em seguida, a IstoÉ, e assim por diante. Consequentemente, haverá uma sucessão de entrevistas com protagonistas e figurantes dos fatos; os comentaristas se debruçarão sobre o assunto; situação e oposição trocarão chumbo. É a diabólica criação do fato novo. E com todos os subprodutos: palavras-chave, frases-feitas, slogans.
Analiticamente falando, não está totalmente errado a imprensa se prestar a esse tipo de papel, de instrumento de manobra. Afinal, pior do que a censura é a autocensura. Além do mais, existe a luta premente da sobrevivência no mercado. Quem trabalha com notícia quer mais é notícia que venda.
As dificuldades, no entanto, aparecem quando a sociedade consumidora dessas mensagens não consegue filtrar aquilo que está lendo - alugando, literalmente, sua cabeça a conclusões ligeiras e ultraligeiras. Os veículos que comunicam esses tipos de mensagem precisam ser entendidos também no seu valor indicativo, motivador, de leituras de maior fôlego sobre o assunto (claro, de acordo com a vontade do freguês). Assim, ler diariamente uma ou duas colunas de economia, ou política, não transforma o leitor em economista ou cientista político. Mas referencia o interesse daquele que estiver preocupado com a pesquisa do tema.
Em resumo: o leitor de jornal e revista precisa estar avisado de que esses veículos podem ser, de vez em quando, vítimas - ou cúmplices - de jogadas políticas, de cortinas-de-fumaça.
LULA/MITTERRAND Numa dessas reportagens tipo de encomenda, um colunista de uma das referidas revistas divulgou, esta semana, comparação entre Luiz Inácio Lula da Silva e François Maurice Marie Mitterrand. Isso porque Mitterrand elegeu-se presidente da França depois de ter amargado três derrotas consecutivas. Ora, ora. Os arautos petistas já tinham pensado nessa comparação na segunda derrota de Lula, quando disputou a presidência da República com Fernando Henrique Cardoso. Não deram corda para o assunto porque implicaria em reconhecer a chance de derrota no pleito seguinte. Como isso acabou acontecendo, vêm agora com plena carga os comparativos com o ex-presidente francês, carinhosamente chamado de Tonton (equivalente a tiozinho) pelos franceses.
Agora, francamente, não dá para engolir essa comparação. Mitterrand era formado em Direito e Ciência Política. Lutou na 2ª Grande Guerra, foi prisioneiro dos alemães, fugiu, tornou-se um dos principais líderes da Resistência. Foi depois deputado pelo Partido Socialista, várias vezes ministro de Estado (dos Territórios Ultramar, do Interior e da Justiça), secretário de Estado para Informação, e senador. Escreveu vários livros. Mesmo assim, a equipe de marketing de Lula promete que o eterno candidato à Presidência vai estudar inglês e viajar mais para o exterior.
A PENA DA PENA Os sequestradores do empresário Abílio Diniz foram beneficiados pela maioria dos desembargadores do 2º Grupo de Câmaras Criminais do Tribunal de Justiça de São Paulo. Sua pena foi reduzida cerca de 10 anos. Embora Suas Excelências tenham votado com base na lei, conforme a manipulação da informação o cidadão comum pode ter a impressão de que é a pressão que está funcionando. Os sequestradores mudaram o discurso (tinham dito, quando foram presos, que o crime não tinha motivação política), formaram um Comitê de Libertação, e já conseguiram ser visitados por autoridades públicas de alto escalão e de altos prelados, sem contar os inúmeros políticos, parlamentares, que se aproximam, fazem pose para fotografias, e tiram uma casquinha. Tudo como se, realmente, os criminosos fossem inocentes e estivessem sendo injustiçados. Só de espaço em rádio e TV eles já devem ter somado horas, e metros de página de jornal. Mas ainda não ouvi, li ou assisti a nenhuma entrevista com a vítima do crime. Só sei que, se forem libertados, eles vão, sim, dar longas entrevistas, vão aparecer no Fantástico, no Jô Soares, e os brasileiros ainda acabarão pedindo-lhes desculpas.
EM TEMPO 1.
Critiquei os cursinhos pré-vestibular, ontem, nesta Folha. Falei da rudeza desse sistema de seleção, mais parecendo máquina de moer carne, carne do vestiba e da família do vestiba. O aluno tem de ralar muito mais para aprender a fazer a prova do que para aprender para a vida. Mas veja só que coisa: o presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT) Vicente Paulo da Silva, o Vicentinho, já foi aprovado em duas universidades paulistas, a Universidade Bandeirantes e a Universidade São Marcos. E ainda está concorrendo a uma vaga na Faculdade de Direito de São Bernardo. O detalhe é que Vicentinho tirou o 2º grau através do Telecurso. Decerto, entre uma manifestação e outra, entre uma negociação e outra, o sindicalista rachou a matéria. Isso não prova que quem faz a escola é o aluno?
EM TEMPO 2.
Silêncio sepulcral da mídia à espera da sanção governamental para a lei estadual que criou, inconstitucionalmente, a possibilidade de cargo de cartorário ser provido mediante remoção sem concurso, através de permuta. Sancionará ou não sancionará? Vetará a parte inconstitucional? O saneamento dos mal-entendidos existentes a respeito da atividade notarial e de registro vai começar no momento em que a imprensa a puser na pauta. E revelar tudo, da genealogia dos titulares ao faturamento mensal. Poderiam aproveitar o ensejo da proposta do Tribunal de Justiça enviada à Assembléia Legislativa, no sentido de aumentar os preços dos serviços cartoriais.





