Todo final de ano, repete-se a tragicomédia do exame vestibular às universidades brasileiras. Um processo que, ao longo do tempo, foi acumulando contradições, criando sistemas e subsistemas que se enraizaram e tomaram conta do País, feito praga de ‘‘dinheiro-em-penca’’.
E ponha dinheiro em penca nisso aí. O que eram modestíssimos cursinhos preparatórios, alguns hoje são potências internacionais. Na base do aproveitamento da oportunidade, no cultivo do subsistema. Já que o sistema impôs o exame vestibular, o subsistema criou o curso preparatório. Isso, obviamente, na vantagem (para o empreendimento, lógico) de que as escolas, notadamente da rede pública, eram incapazes de capacitar o aluno a passar nas provas. Além do mais, essa planta trepadeira contava com a estreiteza mentalidade social brasileira, que simplesmente adora o bacharelismo, esse negócio de pendurar diploma universitário na parede, ostentar no dedo anel de colação de grau, ser chamado de ‘‘doutor’’, independentemente da efetiva competência de trabalho.
Assim o negócio de preparar para o vestibular prosperou. E na rebarba do subsistema, implantou a chamada ‘‘cultura de apostila’’, outra erva daninha do senso crítico estudantil. Os heróis que conseguem ser aprovados, entram na universidade e de cara entram em pânico porque o professor indica leitura obrigatória de densos e pesados livros técnicos. O impacto é enorme, pois a cabeça do ex-vestiba, agora calouro, foi formatada no consumo de subprodutos do livro, na leitura de oitava mão, na diagramação publicitária do conhecimento, nos boxes de ‘‘macetes’’. Pois é. Curso superior não é feito de decoreba, para desgraça do acadêmico novato.
CURSÕES A história causou especializações em todos os pontos do sistema. Os examinadores sofisticaram a forma de ‘‘avaliar’’ o conhecimento dos candidatos (iniciando a era da ‘‘múltipla escolha’’), alguns destes sofisticaram o esquema de cola, e os cursinhos sofisticaram a estrutura e a infra-estrutura das aulas.
‘‘Cursinho’’ é palavra que grudou no senso comum, embora, atualmente, o diminutivo não guarde a menor relação com a realidade. As salas de aula foram enchendo, enchendo. Ao invés de um professor lecionar para 15 ou 20 alunos, passou a lecionar para 70, 80, 100. Nesta Folha, ontem, tivemos uma reportagem da jornalista Anna Camanducaia dando conta de que uma das empresas de ensino da Capital reunira 6 mil alunos para um ‘‘aulão’’ no Centro de Convenções de Curitiba. Deram dicas, inclusive, de relaxamento. Relaxamento antes do massacre. (Qualquer semelhança com os fornos nazistas de extermínio é mera coincidência).
O crescimento do negócio dos cursinhos surgiu com a massificação - e, principalmente, com o fato de que, em turmas gigantescas, de 200 alunos ou mais, enquanto a mensalidade de um aluno pagava o professor, o restante pagava a empresa. Um grande negócio. Melhor do que depositar no over night em tempos de hiperinflação.
ÔNIBUS Neste ano, o exame vestibular da Universidade Federal do Paraná, a mais antiga do Brasil, teve 47.738 inscritos. Número de vagas: 3.474. Quer dizer, em números redondos, que após o resultado a sociedade terá um contingente de 44 mil recém-frustrados. A melhor comparação que ouvi a respeito dessa matança foi de um pensador chamado Antonio Grimm. Ele disse que exame vestibular é como um ônibus que fica passando, de janelas abertas, no meio de uma multidão - e as pessoas têm de se atirar para dentro se quiserem viajar.
O que há de certo é que as provas do vestibular não provam a capacidade, a inteligência, a maturidade do candidato. Todo mundo sabe disso, mas só no governo Fernando Henrique é que o Ministério de Educação teve coragem de começar a mexer no sistema. O ministro Paulo Renato Souza já iniciou o processo de flexibilização do sistema de avaliação, dando maior autonomia aos cursos superiores para escolherem o modo de avaliar. Novidade que, nos EUA, existe há pelo menos 50 anos - desde que as autoridades públicas descobriram que saber pensar é mais importante do que saber guardar informações.
Talvez dê certo. Agora que o mercado dos cursinhos está suficientemente dividido entre superpotências, cada empresa oferecendo escola do maternal ao universitário, o exame vestibular já deu o que tinha que dar. A grita maior com a mudança do modelo, sem dúvida, deverá vir das universidades públicas - que têm na taxa de inscrição uma formidável fonte de renda (conforme matéria de Giovani Ferreira, nesta Folha, dia 15).
O MITO DO BACHAREL Aos poucos, a competição econômica, a diversificação do mercado de trabalho, os avanços tecnológicos, dentre outras contingências, estão modificando usos e costumes nacionais. Para muitas indústrias e empresas o diploma de bacharel já está sendo relativizado. O que interessa é a competência do trabalhador e sua capacidade de se auto-atualizar para acompanhar o ritmo das mudanças na empresa. Inclusive, na área da informática, são inúmeros os exemplos em que determinados cursos livres gozam de mais prestígio do que os cursos universitários.
Essa transformação da mentalidade já vem tarde. Tem muita gente que se arrebenta, anos a fio, até passar no vestibular; depois que passa, descobre que era feliz e não sabia (constatação que pode se acentuar posteriormente, na disputa de uma colocação profissional).

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