Joel Samways Neto
Joel Samways Neto
Interesse de futebol
Por mais que comentem, pesquisem, escrevam, reportem, filmem, o futebol, no Brasil, continuará sendo um fenômeno sociológico inesgotável. Como pega na alma do brasileiro, seu! Obviamente, começa que é um jogo. Mexe com o lúdico do humano - e ainda por cima, é muito competitivo, o que causa pruridos no tal espírito de emulação.
Dizem, também, que a popularidade se deve ao fato de suas regras serem simples, lógicas, de fácil assimilação. No mundo todo, mal a criança aprendeu a ficar de pé e já está chutando bola. Brasileiro, em geral, nessa idade, já tem time e costuma jogar bola com uniforme completo. Curioso. Nem as escancaradas contradições da cartolagem, da arbitragem, da sacanagem, que pululam nesse esporte, conseguem desestimular a maioria esmagadora (a mim desestimularam).
Certamente, o interesse em futebol, lato senso (das peladas suíças ao campeonato oficial, passando pela várzea), está em segundo lugar no ranking da prosa sem compromisso das esquinas e rodas de cafezinho. Vem logo atrás da maledicência (mas ali, ó). A crônica esportiva que o diga. O pessoal sabe não só a escalação completa do time preferido - sabe o nome, a data de nascimento, a naturalidade, a filiação, o histórico futebolístico, inclusive dos reservas, do técnico, do preparador físico, do massagista...
Agora, coisa séria são as mesas redondas, na TV. Os intermináveis comentários que conseguem dissecar uma partida tintim por tintim, até dar náusea. E repetem lances, em câmera lenta, congelando imagem. Aí, vão ao computador e tiram a teima, invertem ângulos, olham de cima, olham de baixo, tudo para provar que o atacante estava impedido no instante do chute a gol, ou que o zagueiro ajeitou a bola com a mão. E o mais insólito: chegam a ler o pensamento de jogadores e de árbitros. Dizem: O jogador chutou consciente...!, Romário viu que o goleiro estava adiantado...!, Marcelinho escolhem bem o ângulo, aproveitando a má colocação da defesa...!. E com a arbitragem: O juiz viu a jogada mas interpretou (sic) como normal...!.
Ora, ora. (Para mim, a maioria dos gols parece gol de sorte - principalmente aqueles em que o jogador chuta olhando para baixo, a bola bate de raspão no zagueiro, quica no morrinho assassino da pequena área e entra.) E o telespectador permanece ali, defronte a telinha, com o olhar esgazeado, boquiaberto, absorvendo aquele mundo de variações sobre o mesmo tema. Depois, é capaz de repetir e reproduzir sobre tudo o que viu e ouviu, e fazer ilações, e cruzar informações etc. Essa capacidade é que me chama a atenção. Essa capacidade de o brasileiro saber futebol, sentir futebol, falando do esporte como se estivesse falando de si próprio.
Ah, se esse interesse de futebol contaminasse os compatriotas também em relação a outros assuntos. Coisas ligadas à educação, à política, à segurança, enfim, à cidadania. Já pensou? Uma dessas mesas redondas discutindo - com a mesma paixão que as de futebol! - as questões do ensino-aprendizagem na escola pública. Mostrando determinadas atitudes do professor em sala de aula... Por exemplo, ele fingindo que ensina e o aluno fingindo que aprende. Aí, mostrando cenas em câmera lenta, congelando imagem, apelando para a virtualidade da computação gráfica. E o que é melhor: com uma massa imensa de telespectadores, ligados, com olhar vidrado, totalmente absortos na assimilação, quase um entranhamento, das informações. E, posteriormente, todos saírem falando, discutindo, opinando, com desenvoltura, com conhecimento de causa, sobre educação, nas filas de banco, nos pontos de ônibus ou táxi, nos bancos das praças, ou em família, às principais refeições. Teríamos uma revolução por dia no País.
OPÇÃO IDEOLÓGICA Se houvesse interesse de futebol por questões de cidadania, poderíamos estar assistindo a mesas redondas sobre, quem sabe, o Ministério Público (MP) do Paraná. Poderíamos estar assistindo ao destrinchar da matéria publicada ontem, nesta Folha, Ministério público e defesa da cidadania, da lavra do presidente da Associação Paranaense do MP. Muito oportuno o texto, até porque não são frequentes as vezes em que essa instituição vem a público falar a respeito de si, de suas finalidades, suas fundamentações funcionais. Aliás, veríamos como foi importante o referido presidente ter dito algo sobre valores gerais a partir dos quais se estabelece a supremacia da vontade coletiva sobre o interesse individual. Também foi importante ter tratado de oligarquias e corporativismos.
Então, nessa nossa suposta mesa redonda sobre o tema, veríamos advogados, professores de Direito, políticos, legisladores, políticos, e mesmo profissionais de outras áreas, e cidadãos comuns, emitindo conceito, questionando, revendo lances, criticando. E decerto, não escapariam ao crivo alguns dados que permaneceram nas linhas genéricas. Como naquele momento em que o texto cuidou do evento a ser realizado em outubro de 1999, o último congresso nacional do milênio, entre promotores e procuradores e Justiça. E disse que nessa ocasião haverá uma ampla discussão, avaliação e aprimoramento do Ministério Público Social opção ideológica ajustada aos nossos tempos e apta a tirar do papel, entre nós, os postulados fundamentais da dignidade, inscritos na cinquentenária Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Qual opção ideológica é essa? A sociedade tem o direito de saber, porquanto, de repente, pode-se confundir com ideologia político-partidária, e aí poderia haver algum equívoco. Ideologia política, quando defendida por partido político é uma coisa. Os partidos têm cada qual o seu ideário, sua doutrina, sua proposta de trabalho se acaso chegar a ocupar cargos de governo. Mas aí se apresentam em campanhas eleitorais, disputando democraticamente a preferência do eleitorado. No caso do MP, não há eleição. Os eleitores, os contribuintes, não elegem os promotores de Justiça, nem os promotores de Justiça precisam declarar sua ideologia para assumir o cargo. Este é provido mediante concurso público de provas e títulos, em matéria de Direito. E são examinados, em matéria de direito, por seus futuros pares e por representantes da Ordem dos Advogados do Brasil. E as funções do cargo têm previsão legal. E em momento algum a Constituição da República, ou a lei especial que regulamenta a profissão, mencionam opção ideológica. Logo, o cidadão precisa ser melhor informado, senão poderá pensar que está pagando tributos para manter um serviço público que deveria ser prestado de um jeito e, no entanto, está sendo prestado de outro. Não sei que outro. Só sei que quando alguém fala em opção ideológica e não declina de qual ideologia, permite que o leitor, o ouvinte, o telespectador, imaginem sabe-se lá o quê (ideologia humanista? de esquerda? de direita? democrática? totalitária?). Conforme a atitude que o MP tenha diante de um crime de esbulho possessório cometido pelo MST, a interpretação ideológica poderá ser desta ou daquela maneira.
EM TEMPO Ainda o assunto da lei que a Assembléia Legislativa criou, permitindo, no Paraná, o provimento de cargo de cartorário, na modalidade remoção, sem concurso público, usando de mera permuta. O governador não sei se vai sancionar - afinal, a inconstitucionalidade, nessa parte, é gritante. Mas a imprensa deveria aproveitar e pautar, com insistência, a investigação do fenômeno cartorial brasileiro. Se nossas leis civis impõem que muitos dos atos da vida civil mais importantes devem ser registrados em cartório, do contrário não terão validade, por que essa tarefa é exercida em caráter privado mediante delegação do Poder Público? Por que não estatizam integralmente esse serviço, permitindo que a população dele se utilize a preço de tarifa módica? Tem muita gente que não conclui uma aquisição de bem imóvel, ou uma doação, por exemplo, porque o preço do serviço é estratosférico. Teria de vender o patrimônio para registrar o patrimônio. Eis um assunto típico de mesa redonda, merecedor do nosso mais profundo interesse de futebol.
- JOEL SAMWAYS NETO é procurador do Estado do Paraná e escritor em Curitiba, e está substituindo o jornalista Luiz Geraldo Mazza, que está em férias





