2010 foi o ''Ano Nacional Joaquim Nabuco''. Importante nome da diplomacia brasileira e exímio escritor, Nabuco fecha o ciclo dos grandes intelectuais que precederam os modernistas dos anos de 1920. Mais conhecido pelo seu destacado papel no movimento abolicionista, no final do século XIX, Nabuco certamente foi visto em 2010 por diversas perspectivas de análise, considerando, sobretudo, a série de atividades que prepararam várias instituições nacionais e internacionais, incluindo a Academia Brasileira de Letras que, junto com Machado de Assis, ajudou a fundar.
O escritor pernambucano deixou registrado em ''Minha Formação'' - importante autobiografia publicada no ano de 1900 - um artigo que escrevera para o jornal ''A Reforma'' a respeito da primeira viagem que o imperador Dom Pedro II, em 1871, faria à Europa. No artigo Nabuco não estava preocupado em comentar o dispêndio de dinheiro que o erário teria com a viagem do imperador. Até porque era a primeira vez que Dom Pedro pisaria em solo europeu.
O artigo de Nabuco, ainda jovem, consistia em se posicionar diante de duas visões que moviam a política da época: a monarquia e o liberalismo. Comentava que o seu desejo era aconselhar ''ao imperador que, em vez de ir à velha Europa, fosse à jovem América''. Continua o ilustre escritor: ''Sobretudo ele (o imperador) compreenderia uma coisa: ao ver os Estados Unidos à frente do progresso industrial e moral, compreenderia que os reis podem bem ser uma hipótese, um luxo, uma superfetação. Ao ver uma sociedade amplamente liberal e livre, governando-se sem rei, ele compreenderia que, em certas épocas, os povos podem dispensar qualquer tutela''. (Nabuco, p. 31-32)
O jovem Nabuco, apesar de mais tarde ter firmado posição favorável à monarquia, conseguiu construir sua formação política literária dentro de opções teóricas disponíveis na constelação histórica de sua época. Já na maturidade, com o advento da República, sofreria ele pelo excesso de suas ideias monarquistas. Em seus últimos anos de vida atuou como embaixador em Washington, buscando impor, sem sucesso, ''seu pan-americanismo ao governo brasileiro - que permanecia mais alinhado à Europa''. (Folha de S. Paulo, 09/01/10). Nabuco foi progressista em tempos de monarquia e monarquista em tempos republicanos, sabendo se reinventar, sem deixar de ser consciência-limite do seu tempo.
O ano de 2011 abre uma nova página na história política do país com a vitória da primeira mulher presidente. Diante das mudanças aceleradas pelas quais passa o cenário interno e global, é salutar delinear novas perspectivas teóricas que permitam arquitetar o país além de nossas já conhecidas deficiências e limitações.
Não menos importante, no início do novo governo, é ponderar a prioridade da política externa que será levada adiante pelo diplomata Antônio Patriota. Os desafios perpassam desde a conciliação da projeção do país no plano do comércio internacional sem titubear no firme tratamento do tema dos Direitos Humanos; preservar a ênfase nas relações sul-sul, fortalecendo alianças com o IBAS (Índia, Brasil e África do Sul) e o BRIC (Brasil, Rússia, Índia, China), sem perder de vista os fóruns mundiais como o G8 e G20; além de manter enfática campanha pela reforma de organismos internacionais e a tão almejada conquista do assento permanente no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU). Nesses e outros temas que desafiam o futuro do país, Nabuco continua nosso contemporâneo.
CLODOMIRO JOSÉ BANNWART JÚNIOR e MICHELE CHRISTIANE DE SOUZA BANNWART são, respectivamente, professor de Ética e Filosofia Política e mestranda em Direito Negocial na Universidade Estadual de Londrina

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