João Paulo II e o perdão
Caro Antônio Roberto, no dia 25 deste, na seção O Leitor Escreve deste mesmo jornal, você pediu para que eu me manifestasse a respeito da atitude do Papa João Paulo II quando este, nas suas recentes viagens a Israel, Grécia e Ucrânia, pediu perdão aos judeus e aos ortodoxos pelos excessos e crimes cometidos pela Igreja Católica no passado remoto e recente. Disse também que o fato foi amplamente divulgado pela imprensa, mas que o próprio Papa não esclareceu que crimes foram esses. Então, você me solicitou o esclarecimento de tais desvios que, como disse, são desconhecidos da maioria das pessoas.
Naturalmente, uma explicação mais profunda sobre o assunto demandaria a feitura de um livro, exaustivas pesquisas, isenção de espírito, desvinculação do sagrado da organização material e humana da Igreja Católica. Isto é impossível num breve artigo. Mesmo assim, tentarei dar-lhe uma pálida idéia do que aconteceu para que seja acrescentada uma pequena luz sobre o tema. Afinal, alguém já disse, que escrevemos porque temos algo a dizer e a coragem de dizer.
Pelo que sei, os desacertos começaram num passado longínquo. Isso porque, após a morte de Jesus seus ensinamentos se espalharam por diversos lugares do mundo, tomando conotações peculiares conforme as interpretações de cada grupamento que os absorvia. Então, ao longo dos séculos, houve a necessidade de unificar numa só Igreja cristã todas as interpretações divergentes e, assim, muitos Concílios foram realizados para combater as heresias, doutrinas não aceitas pela cúpula eclesiástica.
Como se sabe, o Imperador Constantino, com o Édito de Milão de 313, reconheceu a religião cristã como lícita e concedeu aos cristãos a liberdade de culto, além de criar para eles tribunais especiais com magistrados e jurisprudência cível e criminal. Este imperador transferiu a sede do Império Romano para Bizâncio e acabou conferindo enorme poder à Igreja. Mas esta transferência desagradou aos líderes da Igreja Católica, cuja tendência era desde São Pedro considerar Roma como o centro de sua fé. Por sua vez, os patriarcas de Constantinopola (como passou a se chamar Bizâncio) se sentiam autorizados como chefes dessa mesma Igreja. E este foi o começo e o caminho da discórdia que opôs católicos e ortodoxos e que resultou em inúmeras perseguições, excessos e crimes pelos quais o Papa hoje pede perdão.
Recorde-se que a Igreja Ortodoxa, que é constituída de um grupo de igrejas independentes, não reconhece como as igrejas protestantes sendo que os protestantes também sofreram terríveis perseguições por parte da Igreja Católica a autoridade papal. O Grande Cisma entre Oriente e Ocidente aconteceu em 1054, quando os patriarcas de Constantinopla e de Roma não puderam resolver suas diferenças que até hoje são profundas.
Quanto aos judeus, não se desconhece o fato de que a Igreja Católica foi a grande responsável por sua criminalização como deicidas, ou seja, aqueles que mataram Deus. Isto pesará sobre o fato de que os judeus, com sua religião, língua e tradições diferentes, sempre foram vistos nos países onde se instalaram como os outros, que disputavam empregos e riquezas dos autóctones.
Sobre os crimes cometidos contra os judeus, cite-se, à guisa de ilustração, a Nova Inquisição Espanhola, introduzida nos territórios dos reis católicos Fernando e Isabel, em 1480, como uma questão de Estado. A caça grossa dos inquisidores eram os judeus, seguidos dos mulçumanos.
Em Portugal, a Inquisição será introduzida em 1536, a pedido do rei Dom João III, o Beato, que Alexandre Herculano chamou de rei néscio e fanático, depois de devidamente autorizada por uma bula papal.
A inquisição espanhola como a portuguesa, castigava com penas que variavam de acordo com o delito. Eram utilizados alguns métodos tais como: prisão por tempo indeterminado ou perpétua, tortura, flagelação, trabalho nas Galés, degredo, confisco de bens dos réus e de sua família (muito usado contra os judeus), uso do sambenito (traje de penitência que o réu usava no momento do auto-de-fé, ou que era obrigado a trajar pelo resto de sua vida,) inabilitação e, o mais horrendo de todos os castigos, a morte na fogueira.
Em 1235, o Concílio de Arles, numa antecipação fantástica ao nazismo, ordenou que todos os judeus usassem um remendo redondo e amarelo sobre o peito como sinal de sua identificação e estigma.
Recentemente, os judeus se queixaram que o Papa Pio XII foi conivente com Hitler quando da tenebrosa perseguição deste contra eles.
Recentemente o Papa pediu também perdão pelos excessos cometidos pela Igreja Católica na América Latina. Mas para levar equilíbrio a esta breve e incompleta narrativa histórica, lembro que a Igreja Católica também teve seus homens santos, seus grandes místicos e possui inúmeros e piedosos fiéis, tendo sido eu mesma um deles, o que não exclui a intolerância e o fanatismo levados a efeito em nome de Deus, pelo que o Santo Padre pede perdão. Um gesto de humildade e de grandeza, a lembrar, inclusive, que as religiões, todas elas, podem ser fontes tanto de grandes benefícios quanto de grandes desgraças.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, professora universitária e escritora em Londrina
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