João M. Anacleto Rosa
A figura de
Álvaro Grotti
Existem situações em nossa rápida passagem por este mundo em que, a priori, o silêncio é a mais eficaz das medidas a serem tomadas, visto que meras palavras se mostram insuficientes para explanar determinados sentimentos que invadem nossa alma. Outrossim, ultrapassado aquele momento exordial em que o choque e o abatimento se sobrepõem à indiferença típica do mais gélido mortal, intentar tecer alguns argumentos é de salutar importância, restando como um menor desagravo em prol daquele que empresta seu nome a este texto.
O fatídico dia 2 de julho de 1998, data em que se deu o falecimento do ex-edil e empresário Álvaro Grotti, restará marcado de forma indissolúvel na memória dos que o conheceram, mostrando-se inviável, em princípio, a possibilidade de apagar tal latente amargura de nossas mentes.
Não somos possuidores do objetivo medíocre e inoportuno de, através destas mal traçadas linhas, expender uma gama infindável de elogios ufanistas e exacerbados em seu benefício, escondendo defeitos ínsitos a qualquer ser humano, com o intuito piegas de ora transformá-lo em herói. Todavia, não podemos nos omitir e quedar silentes diante do incidente atroz que lhe sobreveio, do mal que o acometeu.
Para os que tão-somente tiveram conhecimento do fato por intermédio da imprensa (extremamente zelosa no caso, ressalte-se) ou através de comentários maledicentes da população em geral, poderia tratar-se de apenas mais um dos inúmeros acontecimentos extravagantes que refletem este fim de milênio. Noutro diapasão, desde os que tiveramm o privilégio de conhecer Álvaro Grotti superficialmente até os amigos de longa data - entre os quais ouso me postar - resta, no mínimo, a imagem cristalina de um homem afável e companheiro.
Desprovido de valores materiais, possuidor de um caráter irretocável e retidão de conduta ímpar nos dias atuais, quando esmagadora parcela das pessoas crê piamente que os fins a serem alcançados justificam os meios utilizados, jamais teve contra si suscitada qualquer mácula que pudesse desaboná-lo.
Álvaro Grotti pautava seus procedimentos cotidianos pela moralidade, porém, abortaremos aqui toda sorte de encômios que pudessem ser desferidos em seu favor pois, afinal, seus 67 anos de vida falam por si sós. Ademais, tudo o que viéssemos a denotar em seu benefício soaria pequeno demais face a grandeza de sua figura humana.
Nesta senda, quando o que prepondera é a tristeza, a dor e o aperto no coração, ainda mais vindo à tona a lembrança dos momentos aprazíveis de outrora, felizmente nos confortamos com outro pensamento. Acreditamos que, com o passar dos dias, tal decepção se esvairá pelos ares para não mais retornar, como se nunca tivesse existido, concedendo lugar para o orgulho incomensurável de ter conhecido alguém que foi muito mais que um vereador, um presbítero, um parente ou um empresário. Alguém que superou tudo isso. Alguém que foi um verdadeiro amigo.
- JOÃO MARCOS ANACLETO ROSA é advogado em Londrina

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