Na semana passada, o presidente Donald Trump anunciou que os Estados Unidos reconhecem oficialmente Jerusalém como capital do Estado de Israel. Ele também disse que tem planos de mudar a embaixada americana de Tel Aviv para Jerusalém.

Muitos estão perdidos no drama jornalístico criado ao longo da semana em torno da discussão sobre a lei e a história que moldam este momento histórico.

Há vinte e dois anos, o Congresso dos Estados Unidos aprovou a "Ato da Embaixada em Jerusalém, de 1995", que essencialmente declara três coisas:

1. Que Jerusalém deve permanecer uma cidade indivisível com respeito a todos os grupos étnicos e religiosos;

2. Que Jerusalém deve ser reconhecida como a capital de Israel;

3. Que a Embaixada dos Estados Unidos deve ser transferida para Jerusalém.

A lei também permitiu que o presidente dos Estados Unidos atrasasse sua implementação mediante a assinatura de uma renúncia a cada seis meses – ação que cada presidente tem tomado por 22 anos, até o dia 4 de dezembro passado.

Trump, no entanto, não usou a palavra "indivisível", adotada pelo Congresso no enunciado da referida lei. Ele simplesmente mencionou "Jerusalém" sem nenhum acréscimo como "oriental" ou "ocidental", tomando uma atitude que deixa a opção aberta para possíveis negociações e compromissos futuros.

Há algo estranho na situação sobre a qual não vejo ninguém questionar. Nenhum país do mundo reconhece ou "não reconhece" a capital de qualquer outro país, mas deixa a cada nação decidi-lo individualmente. E, de fato, país algum designa uma capital diferente daquela escolhida por seu povo, como muitos fazem com Tel Aviv. É um absurdo. Seria o mesmo que você me dissesse: "Eu não reconheço o seu nome como Abraham, e de agora em diante resolvi chamá-lo de Alfredo". Isso simplesmente não se faz. E quando é feito, tecnicamente viola o direito internacional.

Então, por que este duplo padrão em relação especificamente a Israel?

Não é por causa da guerra, nem por disputas territoriais e nem devido à ocupação israelense, como alguns afirmam.

Na verdade, neste exato momento, 124 países estão envolvidos em disputas territoriais, incluindo numerosas ocupações – algumas consideradas legítimas, outras não. No entanto, 123 desses países escolheram suas próprias capitais sem qualquer questionamento ou interferência do resto do mundo. Apenas Israel é tratado de forma diferente. Não é mesmo interessante?

Conjecturas sobre a razão para isto incluem tudo – desde o antissemitismo mundial até o desejo árabe, muitas vezes repetido, de "varrer Israel do mapa".

Líderes palestinos declararam "Três Dias de Fúria" após o ato de Trump, e ameaçaram deflagrar uma intifada, além de ataques terroristas contra civis. O presidente palestino, Mahmoud Abbas alertou enigmaticamente os Estados Unidos de "perigo" e expressou sua determinação de cortar as negociações de paz – ameaça irônica, já que atualmente não há negociação alguma de paz e não tem havido desde que o próprio Abbas se afastou delas em 2014.

A Liga Árabe opôs-se oficial e fortemente à decisão do presidente Trump, fazendo inúmeras declarações dramáticas nos últimos dias. Porém, na semana passada, um jornalista altamente respeitado do Kuwait, Abdullah Al-Hadlaq descreveu Israel com as seguintes palavras: "Não há nenhuma ocupação. Existe apenas um povo que regressa à sua terra prometida".

Enquanto Al-Hadlaq não especifica Jerusalém, parece claro que, se não há "nenhuma ocupação" pelo povo judeu em sua "terra prometida", logo, Jerusalém não é ocupada também. A propósito, dentro do Kuwait e em todo o mundo árabe, as declarações de Al-Hadlaq são geralmente interpretadas como uma forma sutil de comunicar a política do governo. Declarações semelhantes vêm de estudiosos respeitados, jornalistas e líderes comunitários no Iraque, Sudão, Arábia Saudita, Egito e outros.

Muitos líderes e jornalistas afirmam que essas ameaças de violência deveriam ser motivo suficiente para os Estados Unidos renunciarem à mudança da embaixada e ao reconhecimento da capital.

Mas essa lógica cria um dilema sutil. De um lado seria irresponsável os Estados Unidos ignorarem a possibilidade de violência. Do outro, será lúcido dar poder de veto sobre a política externa americana a qualquer pessoa no mundo que ameace prejudicar civis por meio de terrorismo? O governo americano deixou evidente que não será refém de nada e ninguém, de modo que não está claro até que ponto a violência ameaça realmente os fatos.

Para finalizar, resta esclarecer que o presidente Trump assinou dois documentos na segunda-feira passada. O primeiro é uma proclamação que reconhece Jerusalém como a capital de Israel e que designa o Departamento de Estado para iniciar os preparativos da construção de uma nova embaixada. A segunda é outra renúncia de seis meses da lei. Esta nova renúncia fez-se necessária, neste caso, porque a logística de construir uma embaixada leva tempo, e sem ela haverá corte automático do financiamento necessário ao Departamento de Estado no orçamento do próximo ano fiscal.

Só o tempo vai mostrar como os recentes eventos afetarão a posição de Israel no mundo, as decisões de outros países sobre sua capital e o papel dos Estados Unidos num potencial processo de paz. Enquanto isso, os elementos básicos da disputa sobre as fronteiras, o futuro do Estado palestino e a segurança dos israelenses contra o terrorismo permanecem.

Mas como a histeria atual da mídia começa a se acalmar, fiquemos com uma nova realidade. Eu direi que o reconhecimento do presidente Trump da capital de Israel é, a partir de agora, a política oficial dos Estados Unidos da América. E, independentemente de qual seja a sua opinião pessoal sobre esta política, ela tem base firme na lógica, no direito e na história.

ABRAHAM SHAPIRO é consultor e coach de líderes em Londrina

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