A segunda fase do Campeonato Paranaense de Futebol começa hoje, e, pelo 16º ano consecutivo, o Londrina Esporte Clube está fora da disputa. O tumulto entre a torcida e a Polícia Militar (PM) no último domingo, dia que selou o destino do time na competição, foi uma demonstração clara do desapontamento da cidade com o ''Tubarão''. A seguir, a opinião do ex-zagueiro do LEC, Márcio Fernandes Alcântara, que atuou nos times campeões de 81 e 92. Atualmente, o atleta é diretor de Esportes do Londrina Country Clube.

Como o senhor vê o tubarão hoje?
É triste ver aquele desespero para montar time todo ano e não conseguir chegar, isso desanima. Outra coisa são os erros nas contratações. Não dá para montar uma equipe em 15 dias, contratar quem não tem vínculo com a cidade, nem conhece Londrina. Então, se perde ou ganha, é a mesma coisa: o pessoal não está nem aí, o treinador vem, fala, vai embora; o jogador vem, faz besteira, vai embora... É difícil.

Está faltando paixão?
Exatamente. Por outro lado, as crianças estão gostando do Londrina, querendo que ele volte a ser um time forte e vença as outras equipes. A molecada antigamente ia (ao estádio) com camisa do Corinthians, Palmeiras, hoje vai com a do Londrina, da Falange Azul. Ela se identifica com o time. Agora, o time é que vai ter que se identificar com a torcida, principalmente com essa molecada.

Qual é a raiz do problema?
Uma coisa séria é que a equipe de base do Londrina está mal; há muitos anos não tem jogadores revelados para formar o profissional. A base tem que ser feita na cidade, com jogadores daqui, para depois você trazer um Zé Elias, um Adãozinho, e juntar com essa molecada. Hoje, se revela jogadores, de repente ele é vendido, e o Londrina não vê, o torcedor nem conhece... Teve o Alan, o último centroavante que apareceu, o ''moleque'' foi vendido por mixaria, coisa que não dá nem para coçar. Isso deve ser repensado para que o Londrina volte a ter uma condição boa.

Leva tempo para formar jogadores...
Para formar um bom jogador demora dez anos. Se perder esse, você terá que esperar mais dez. É uma matemática muito correta essa daí. Isso aconteceu bastante no Londrina e o reflexo na equipe principal é esse que a gente vê

E os olheiros?
Isso também é importante, são necessários profissionais especializados. Quando comecei, vários jogadores foram revelados pelo ''Ticão'' (Aliomar Rodrigues Mansano), que era um olheiro do futebol e trazia jogadores. O Londrina já teve o João Severo também, que trouxe muitas pessoas. É preciso uma pessoa da cidade, que gosta de futebol, com essa competência.

Quais são outras diferenças do Londrina de hoje e das equipes campeãs?
Tínhamos jogadores formados na escolinha do Londrina, como eu, o Luis Gustavo, o Nivaldo e muitos outros. Em 92, acho que 80% dos jogadores eram da casa, alguns outros vinham compor o grupo. A maior diferença é essa.

Carlos Alberto Garcia chegou a declarar à FOLHA, numa entrevista gravada, que o LEC ia falir. Você acredita nisso?
Não vejo que o Londrina vai ter esse tipo (de problema), não. A não ser com pessoas incompetentes (na direção). Tem pessoas incompetentes que podem falar, agora, honestamente, não sei... Vejo que Londrina é uma cidade forte e tem muita gente que quer ajudar o LEC, só não ajuda porque muitas administrações deixaram a desejar (financeiramente).

O que você sente ao ver o LEC na situação atual?Ah, é triste, né? Veja, vou fazer 47 anos e o pessoal na cidade ainda fala: ''pô Márcio, no Londrina está faltando você''... Parei de jogar em 96, olha quantos anos já faz, e a pessoa ainda se identifica... É muito triste isso daí. Está faltando gente nova para suar a camisa de verdade.

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