''JEITINHO BRASILEIRO'' Corrupção pode ter origem neurológica
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quinta-feira, 24 de junho de 2010
Érika Gonçalves<br>Reportagem Local 
Presença constante nos noticiários, a corrupção parece ser parte integrante do cotidiano da política, tanto no Brasil quanto em qualquer outro país. Em geral, as pessoas atribuem o ''levar vantagem'' à falta de caráter, mas cientistas descobriram que também existe uma razão biológica para esse tipo de desvio de comportamento. Uma série de estudos demonstrou que cérebros de corruptos guardam semelhança com os de dependentes químicos.
O assunto chama tanto a atenção que durante o 6º Congresso Brasileiro de Cérebro, Comportamento e Emoções realizado em Gramado (RS) na primeira quinzena do mês, uma mesa-redonda se dedicou exclusivamente a debater a corrupção, as influências do meio e a neurociência.
Jaderson Costa da Costa, professor titular de Neurologia e diretor do Instituto do Cérebro (InsCer) da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio Grande do Sul participou do encontro e explica que o meio ambiente também exerce influência na ação dos corruptos. Portanto, nada de achar que a culpa é da biologia e que nada pode ser feito. Confirma mais sobre o assunto na entrevista a seguir.
Quais são as semelhanças biológicas entre o cérebro do corrupto e o do dependente químico?
Sabe-se dos estudos com neuroimagem funcional que desenvolvemos desde a infância o ''juízo de valores'', que permite que o nosso cérebro avalie o certo e o errado, o lícito e o ilícito. Quem transgride? Transgridem os psicopatas cujas fronteiras entre o certo e errado não são nítidas e os indivíduos que apresentam prejuízo no julgamento de valores por disfunção (funcionamento anormal) do lobo frontal (área pré-frontal).
Isso pode ocorrer por características próprias do indivíduo, por influência do meio, como consequência de má-educação e por interferência durante o desenvolvimento principalmente nos primeiros quatro a cinco anos de vida. Alguns exemplos são a desnutrição, o abuso infantil, doenças maternas durante a gestação, comprometimentos no desenvolvimento infantil, entre outros fatores.
Por outro lado, o cérebro pode ''aprender'' um funcionamento inadequado pela imitação através dos ''neurônios espelhos'' (neurônios que imitam a atividade de outros neurônios). O delito pode estimular os centros e vias da ''recompensa'' naqueles que possuem esse desvio no funcionamento das áreas frontais, desencadeando ''bem-estar'' à semelhança do que ocorre com os dependentes químicos.
Existe tratamento para o corrupto assim como para o viciado em drogas?
Em geral eles negam o delito ou não percebem que são corruptos e alguns têm prazer em enganar os outros.
O comportamento do corrupto, então, não deve ser exclusivamente creditado ao ambiente no qual a pessoa foi criada e aos valores que recebeu no ambiente familiar, por exemplo?
Provavelmente é o que ocorre com a maioria dos corruptos na qual a maioria dos fatores determinantes são ambientais.
Existem exames que detectem a pré-disposição para a corrupção?
A melhor maneira de prevenir é a educação, os cuidados com a primeira infância, a aplicação das leis e a transparência com a divulgação dos casos de corrupção pela mídia. Isso permite aumentar a nossa percepção desses casos.
Por que há mais corrupção em certos países do que em outros?
As diferenças dependem do regime político. Os regimes democráticos, por terem maior transparência e liberdade de imprensa, divulgam mais os casos. Depende do costume. No Brasil, por exemplo, casos de corrupção podem ser entendidos como ''favor ou jeitinho.'' Depende também do nível educacional e das leis e de sua aplicação. É interessante como referência o livro ''A Cabeça do Brasileiro'' (Editora Record - 2007), de autoria do sociólogo Alberto Carlos Almeida, que mostra como o brasileiro pensa e o que considera ser ''favor, jeitinho e corrupção.''


