Antes de encerrar o ano de 2014, assistimos horrorizados a invasão que pessoas violentas realizaram nas instalações do jornal francês Habbo, matando os seus jornalistas. Na hora seguinte o mundo inteiro se mobilizou. Todas as redes sociais anunciavam em grande letra e com profunda rejeição: "Je suis Charlie!". Eu sou Charlie! A França inteira parou para expressar a sua dor e o seu luto.
Dias atrás, a corte suprema da União Europeia, após ouvir durante uma semana os 17 juízes chegou a um veredicto: Vincent Lambert, acidentado 7 anos atrás e sustentado artificialmente, pode ser "desligado". Pode morrer.
A França e o mundo se silenciaram! Assumir a morte de Vincent, não traz ibope. A eutanásia, pratica inumana e incruenta, pode ser vista como um gesto de bondade pois o paciente já não tem nem consciência nem capacidade para continuar vivendo.
Confusas as imagens emitidas pela TV France. De um lado da sala, a esposa de Vincent com seus advogados; do outro, a mãe de Vincent com os seus advogados. Uma vez dada sentença final, todas as câmeras de TV e microfones se dirigiram até a esposa de Vincent. Ela e mais seis irmãos de Vincent estavam a favor de que ele fosse desligado.
Uma sociedade que grita aos quatro ventos a liberdade e a promoção dos direitos humanos é incapaz de reconhecer a mesma liberdade e condição do paciente. O conceito de viabilidade entrou no linguajar de muitos e, então, um paciente que não pode expressar a sua opinião e nem expor os seus desejos é considerado simplesmente inviável.
A eutanásia não é só um crime, é uma das tantas incoerências que nós seres racionais assumimos e consideramos como algo de nobre teor. Todos os que são a favor da eutanásia têm frases sentimentais que, no primeiro momento, pareceram acompanhar a dor dos que se encontram em volta do paciente. "Já não tinha nada mais para fazer; evitemos a sua dor, está sofrendo muito etc, etc."
Na condição humana, a dor é inevitável. Todos os seres humanos passaremos pela situação de dor. E não uma ou duas vezes: a dor nos acompanhará ao longo da nossa existência. Teremos uma dor última, como afirmava Hegel: "A dor da partida". Só que propiciar e acelerar a partida, além de ser um suicídio é uma prática abominável. O suicídio assistido, o suicídio comprazido, o suicídio teórico e jurídico, amparado pela doce frase: "Não tem mais condições para viver!".
Alguns afirmam que o caso de Vincent abrirá precedentes para que outras sociedades se manifestem a favor da eutanásia. Não era necessário oficializar o suicídio dele para que o mundo inteiro se tranquilizasse. França, a filha mais velha do cristianismo, das ciências modernas e das artes faustuosas, na qual o mundo se espelha para declarar a sua igualdade, fraternidade e liberdade. França que promove as grandes greves e marchas em favor dos menos favorecidos. Hoje o teu silêncio é total e sentido! Espero que se algum dia a minha morte estiver nas mãos de meus parentes, familiares e amigos, ao serem consultados nenhum deles esqueça destas linhas. Pois em plena consciência e uso das minhas faculdades racionais não aceito - nem admito - ser desligado ou preparado para morrer por conta de outros. A minha vida como a vida de todos os seres humanos é sagrada e só Deus tem direito a julgar. Não sou Vincent, sou Rafael.

RAFAEL SOLANO é professor da PUC e sacerdote da Arquidiocese de Londrina



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