Jango, resgate da história
João Goulart morreu no exílio, na solidão. Proibido de retornar à sua pátria querida, vivia triste, pois sonhava voltar para o Brasil. Mas só retornou morto. Era 1976, dezembro, dia 6. Lembrar do presidente Jango é avivar uma aula da história verdadeira que todo o Brasil precisa conhecer, saber, cultivar.
Muito do que ocorreu e do que se pretendia construir continua inacessível ao povo brasileiro, embora tenham sido momentos preciosos da vida nacional. De nossa história recente pouco se fala, estuda-se, vivencia-se. Principalmente sobre os avanços e acontecimentos pré-64, como a Campanha da Legalidade, liderada por Leonel Brizola um dos mais expressivos movimentos populares da América Latina que nas ruas possibilitou o respeito à Constituição Federal e que levou João Goulart ao poder em 7 de setembro de 1961; a fase efervescente das pretendidas reformas de base (reformas agrária, agrícola, social, educacional, universitária, política, comercial, industrial, financeira, urbana, cultural); e outras lutas sociais, populares e nacionais inconclusas pela força das armas, com o golpe militar de 1964.
Mas há uma lógica para tudo assim acontecer entre nós, vítimas que somos de um sistema político perverso que investe no esquecimento, na ausência de memória, no desfibramento do sujeito coletivo nacional, na diminuição do sentimento de povo, na quebra da noção de Nação.
Em época de confiança e de esperança, Jango Goulart fez surgir o décimo terceiro salário, o Estatuto do Trabalhador Rural, estruturou o nosso sistema de telecomunicações (Plano Nacional de Telecomunicações/Embratel), lançou as bases do mercado comum latino-americano, direcionou a política de desenvolvimento para nossa produção e realidade, concebida dentro da visão e compromisso de um projeto nacional. Criou a Eletrobras, empresa nacional que ensejou todo o sistema de geração e distribuição de energia hoje existente no País. Cassou todas as concessões exploração de minérios que infringiam o Código de Minas e a Constituição. Propôs rígido controle ao capital estrangeiro e instituiu a Lei de Remessa de Lucros uma das causas de ser deposto do poder por golpistas a serviço do capital internacional.
Outros ângulos da trajetória janguista precisam ser lembrados. Outro inesquecível trabalhista, Darcy Ribeiro com sabedoria escreveu certa ocasião: A Jango devemos uma coisa muito bonita, que a meu coração fala especialmente: aquele senso de liberdade, de democracia e de criatividade cultural. É naquele período que surge um movimento poderoso que se estende até 1968: o movimento da bossa nova, o movimento do cinema novo, o movimento das canções de protesto, o movimento do teatro de opinião, movimentos que empolgavam toda a juventude, ganhando-a para si mesmo e para o País. Havia formas de concatenar a ação dos jovens para que eles fossem orgulhosos de ser brasileiros. Isso é o que falta hoje. Quem vai ganhar essa juventude que a ditadura castrou e que aí está desbundada? Isso me preocupa profundamente.
Jango contrariou interesses poderosos, avançou nas reformas de base, estimulou o movimento social, defendeu uma política desenvolvimentista contendo como indispensável a elevação do nível de emprego e do salário real, enfrentou o império norte-americano. Enfim, Jango foi pessoa boa, oriunda de família de posses mas que, convivendo na lide gaúcha numa intimidade assimétrica com peões, foi aos poucos desenvolvendo outras tarefas. Chegou a ministro do Trabalho num ato aumentou em 100% o salário mínimo fez-se sucessor político de Getúlio Vargas por méritos próprios, liderou lutas sociais e nacionalistas, duas vezes foi vice-presidente do Brasil eleito pelo voto popular. E, quando assumiu a Presidência, queria algo que ainda não alcançamos: um Brasil melhor e para os brasileiros.
João Goulart caiu muito mais pelos seus acertos do que pelos seus erros. A ditadura mandou-o ao exílio. Morreu por problemas do coração ou foi assassinado? (a dúvida persiste). Não voltou com vida ao Brasil. Passados tantos anos, fica a certeza: sem o tempo não se faz a história. E o dia chegará em que todos reconhecerão, ele foi um patriota, um trabalhista, um brasileiro que viu a face da esperança, da soberania, da justiça social. Um herói na história deste País.
- NELTON MIGUEL FRIEDRICH é presidente estadual do PDT-PR





