Os episódios ocorridos na Venezuela, que provocaram o afastamento (em 12/4) e o retorno (em 14/4) do presidente Hugo Chávez, marcaram semelhanças com fatos vividos no Brasil, durante o início da década de 60, quando, a duras penas, João Goulart foi empossado e manteve-se no poder até cair – sem retorno – também vítima de golpe militar, desferido em 31 de março de 1964. Políticos de esquerda, ambos chegaram ao poder defendendo posições nacionalistas e praticando iniciativas voltadas às camadas menos favorecidas da população.
Como ministro do Trabalho do presidente Getúlio Vargas, Jango propôs a elevação em 100% do salário mínimo, que na época chegou à cerca de US$ 400 (R$ 1.000,00); Chávez instalou ‘‘mercadões populares’’ na Venezuela (uma centena só na capital, Caracas), barateando em até 50% os preços dos alimentos. Um seguidor de Getúlio (chefe da revolução de 1930), outro de Simón Bolívar (que viveu até 1830, fazendo-se chefe das revoluções que libertaram Venezuela, Colômbia, Equador, Panamá, Peru e Bolívia), estadistas que propugnaram pelo desenvolvimento auto-sustentável da América Latina, despertando a ira e a reação dos grupos econômicos e empresariais interessados na exploração de mão-de-obra barata e da fome dos excluídos. Antes de sua deposição, Jango enfrentou três eleições nacionais (eleito vice-presidente em 1955 e 1960, e vencendo o plebiscito de 1963); Chávez também foi aprovado em três eleições (de presidente em 1998, com 56,2% dos votos; da Constituinte em 1999, fazendo 124 de seus 131 membros; e novamente de presidente em 2000, com 59% dos votos).
‘‘Chávez começou pelas mudanças institucionais e pretendia avançar pelas reformas de base para desembocar num país mais justo. Mais ou menos como Jango; Chávez tentou uma diplomacia altiva, independente dos Estados Unidos, e acabou namorando Cuba. Mais ou menos como Jango; Chávez sonhava impor limites aos ganhos de capital e idealizou transformar a gente das favelas, os camponeses, os pescadores e os índios em cidadãos. Mais ou menos como Jango’’, comparou Eliane Cantanhêde, na Folha de S. Paulo (14/4/2002), que ao final questionou o espírito ditatorial dos golpistas: ‘‘Depois de Jango, a aliança empresários-militares-EUA durou duas décadas. Depois de Chávez, assume o empresário Pedro Carmona, tutelado pelos militares e monitorado pelos EUA. Quanto tudo isso durarᒒ? Lá foram dois dias; aqui, 20 anos!
Nas entranhas do poder, de onde eclodem as crises que podem levar a golpes, tanto no Brasil quanto na Venezuela ou qualquer outro país, em qualquer tempo, atuam políticos inescrupulosos e oportunistas, associados a espertalhões dos grandes veículos de comunicação, representantes de corporações econômicas e transnacionais, cujas ações limitam-se a atender os desejos de quem lhes financia e sustenta. Não é por menos que do lado oposto restarão sempre líderes que, detentores de mandatos ou não, proclamam pela autodeterminação dos povos, seja de Cuba, do Iraque ou da China. Assim procederam João Goulart e Hugo Chávez, agindo com independência e estabelecendo relações diplomáticas com chefes de Estado apontados pela mídia como ‘‘subversivos da ordem’’ (de Washington).
No desfecho das ameaças golpistas que antecederam a volta de Jango ao Brasil, em 1961, e o retorno de Chávez ao poder na Venezuela, dois fatos também chamaram atenção e simbolizaram praticamente a entrega das faixas presidenciais a seus legítimos titulares. Na falta dos antecessores golpistas e momentâneos, que desapareceram de cena acuados por idênticas mobilizações populares, Leonel Brizola (governador gaúcho) e Diosdado Cabello (vice-presidente constitucional venezuelano), protagonistas do retorno à Legalidade, receberam de braços abertos João Goulart e Hugo Chávez, reinvestidos como verdadeiros presidentes do Brasil e da Venezuela. Ficaram os exemplos, com a história seguindo o seu curso.
VALMOR STÉDILE é advogado e 2º vice-presidente do PDT no Paraná

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