Não é de hoje que se especula sobre a identidade política do governador Jaime Lerner. Filiado ao PDT desde 1983, Lerner permaneceu pedetista nas mais difíceis situações vividas pela legenda. Por exemplo, na época do Plano Cruzado, em 1986, quando José Sarney chegou a ostentar índices de 97% de sucesso na mídia e Leonel Brizola era acusado de ‘‘inimigo público número um do Brasil’’ (palavras do hoje tucano José Richa, que disputava uma das vagas ao Senado, pelo PMDB), Lerner disputava o Governo do Paraná como candidato a vice-governador da coligação PMN-PDT, recusando-se a atender aos apelos para um rompimento com a liderança maior do partido. Comportamento similar adotou em outras questões, igualmente polêmicas, como o impeachment de Fernando Collor: a campanha do Presidencialismo; as eleições de 1994; a Emenda da Reeleição.
Em todos estes momentos a imprensa nacional desenvolveu o seu papel de deturpar declarações de Brizola, analisando-as de maneira incorreta ou fora do contexto, enquanto que nos estados a tática divisionista ganhou a reforço local de boa parte dos meios de comunicação, que abriram seus espaços para provocar divergência ente membros do partido. Assim, os fracos deixaram-se levar: César Maia e Marcello Alencar (Rio de Janeiro); Maurício Correa (Distrito Federal); Dante de Oliveira (Mato Grosso); Lucio Alcântara (Ceará). ‘‘Todos os que comentavam a minha saída foram trocando de partido e eu continuo firme no PDT’’, testemunhou o próprio governador Jaime Lerner, em uma de suas negativas sobre troca de partido, ainda no mês de março.
Quanto ao caso concreto, o máximo que se pode dizer, até aqui, é que o governador Jaime Lerner peca por permitir que os meios políticos e de informação especulem, com incomparável intensidade, a sua transferência para outro partido, fato lido como pendente no cenário político estadual desde a entrada de 1997. É verdade, porém, que esta possibilidade nunca esteve tão próxima de acontecer. A pretexto da impossibilidade de Lerner acompanhar a marcha do PDT, em oposição ao governo de Fernando Henrique Cardoso, a polêmica chegou a paralisar grande parte das atividades do partido, no Paraná, causando a intranquilidade entre os pedetistas. O governador deverá seguir nos próximos dias para o Rio de Janeiro, onde manterá nova audiência com o presidente nacional do partido, Leonel Brizola, que no final de semana saiu em defesa de Jaime Lerner, considerando que ele estaria sendo vítima de pressões do governo federal.
O líder do PDT fala com a autoridade de quem já exerceu mandatos de prefeito de Porto Alegre (1956/58), governador do Rio Grande do Sul (1959/62) e, duas vezes governador do Rio de Janeiro (83/87 e 91/94) sem jamais utilizar-se destes expedientes contra adversários políticos. No Paraná, o governador Jaime Lerner vem realizando um governo também sem discriminar qualquer prefeito ou liderança política em função da legenda à qual pertença. Se sair do partido, como falam, Lerner estará dando provas de rendição do oposto de seu comportamento político e mandará para a ‘‘lixeira’’ o passado democrático que construiu nos 15 anos de PDT.
É realmente difícil de acreditar que isso venha a ocorrer.

mockup