Houve época em que, escandalizados, selecionávamos para manchetear notícias de malucos americanos que subiam em torres e fuzilavam universitários. Ou dos lunáticos de igual nacionalidade que matavam pessoas em série. Que queimavam civis com napalm ou lança-chamas. Aqui, no nosso cordial Brasil, isso era coisa para manchete, mesmo. Até que nacionalizamos a loucura e passamos a ter nossos próprios maníacos do parque, nossos chacinadores de carandiru, nossos queimadores de índio pataxó.
Um grupo de seis crianças e adolescentes teria torturado, talvez até levá-lo à morte, um mendigo bêbado. Isso, não na Praça da Sé paulista, nem na Candelária carioca, tampouco numa superquadra brasiliense, sequer no Largo da Ordem curitibano. Não, foi em Piraí do Sul, onde nem a delegada local já teria visto coisa igual, apesar de seus oito anos de polícia e mais a convivência com o pai, policial por 30 anos.
Conheci Piraí do Sul há 17 anos, quando a inauguração do asfalto na antiga Estrada do Cerne devolveu um pouco de vida a uma região da qual o resto do Paraná havia se esquecido, depois de ser durante décadas a ligação entre o Norte, que se achava mais paulista, e o Sul, que estranhava os nortistas quase tanto quanto aos imigrantes japoneses. Pelo que me lembro, nada faria supor que Piraí viesse a entrar no mapa da barbárie urbana globalizada.
Acreditando-se nas primeiras informações, o que teria levado crianças piraíenses de 6 a 16 anos a se juntar para matar um homem? E, na falta de motivo justificável, como poderia ser o de legítima defesa, por que fazê-lo com o que os velhos repórteres policiais chamavam logo de requintes de perversidade?
Teriam aprendido a violência pela televisão, desde os cartuns que dão martelada na cabeça do gato vilão até os filmes de combates mortais, carnificina e adrenalina a granel? Ou, mais simplesmente, o mal se instala nos corações humanos, de inocentes crianças como os filhos nossos, sem necessidade da ajuda dos produtores da comunicação e do entretenimento?
Antes de começar essa discussão, permito-me rogar aos meus colegas jornalistas, já que às autoridades não alcançarei, que procurem tratar desse episódio com a responsabilidade que essa notícia exige.
Que procurem apurar com o máximo de rigor o que foi que realmente aconteceu. Que só reportem o que for justo e necessário, de fonte acreditada e de repercussão bem avaliada. Que busquem ouvir especialistas da alma e da mente e do corpo para elucidar nossas leigas suposições. Que ajudem a sociedade a entender o que se passa, para tratar de suas mazelas com serena intenção de curá-las e impedir que se alastrem. Que, sempre que possível, coloquem-se no lugar da vítima já morta, das vítimas já suspeitas de serem as matadoras, das vítimas que ao seu redor vivem na pacata Piraí do Sul, no outrora só operoso Paraná, no antes gentil Brasil. E que façam, enfim, o trabalho mais digno que Deus permita a um profissional e humano.
O cético sabe que, na guerra, a primeira baixa é a da verdade. Só para lembrar casos semelhantes, cá na terra, bastam o das ‘‘bruxas de Guaratuba’’ e o da ‘‘chacina de Carambe풒. Temo que jamais saibamos, com certeza, o que de verdadeiro houve. Talvez os que mataram o índio Galdino em Brasília um dia esclareçam por que o fizeram.
Enquanto isso, agora que em Piraí do Sul temos também o nosso pataxó, eis uma nova e boa oportunidade para aprender, com sincera humildade, onde foi que erramos. Na evolução humana, conforme Darwin ou pela Bíblia, e na comunicação, pelo menos desde Gutemberg.
- CRESO MORAES é jornalista em Curitiba

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