Não se iludam os brasileiros, porque se Câmara e Senado anunciam restrições ao gasto abusivo com passagens aéreas, deixando inclusive de contemplar parentes, já se articulam para criar artifícios de compensação. E há entre eles os inconformados, que esperneiam manifestando-se sem nenhuma vergonha a favor de manter tais mordomias. Neste pacote está também a discussão sobre as verbas indenizatórias, e no caso os 'nobres pares' já vislumbram uma fórmula salvadora em próprio benefício: aumentar o salário. As duas Casas pensam nessa possibilidade.
A verdade é que divulgar a mordomia no caso das passagens é apenas uma consequência, porque a causa é os parlamentares haverem aprovado tais abusos, achando isso normal. Foi graças a uma celebridade - a apresentadora de televisão Adriane Galisteu, beneficiada com passagens oficiais por um ex-namorado deputado federal - que o escândalo das exageradas cotas veio à tona. E tudo de ruim que os colegas do escalão superior fazem, os deputados estaduais imediatamente imitam.
Cometem extravagância de despesas também governadores, ministros, secretários estaduais, prefeitos, vereadores e demais agentes do sistema público. Restringir o uso abusivo de passagens aéreas e as verbas para custeio extra não deixa de ser medida moralizadora se vista isoladamente, mas o mal maior reside nos gastos exagerados do conjunto, e nisso ninguém toca. Com a moralização anunciada os parlamentares imaginam desviar as atenções do povo, assim como o boi lançado ao rio para atrair as piranhas enquanto o grosso da boiada continua passando em outro ponto. É conveniente para eles promoverem esse agito moralizador, mas é ainda foguetório porque o custo geral dos parlamentos é gigantesco, e nisso ninguém mexe. Tudo o que se gastou em passagens - um dos temas escandalosos do momento - estava permitido, portanto o que agora se divulga ocorreu dentro de uma norma estribada em lei (que os próprios parlamentares criaram), embora imoral. Se os políticos tivessem consciência nem teriam aprovado tantas permissividades e não se valeriam delas. Mas, feitas as exceções, pedir para a comunidade oficial economizar dinheiro do povo é como (repetindo-se o surrado dito popular) imaginar que a cabra vá cuidar da horta.
O deputado Ciro Gomes, visando salvar a imagem dos pares, saiu-se com esta: ''Os jovens brasileiros, hoje, pensam que a política é um pardieiro de pilantras, enganadores e defensores de privilégios, porque nós não temos tido a compostura de dar explicações à população''. Bom se fosse apenas essa ausência de explicação. Porque mesmo desejando, não será fácil explicar e convencer.

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