É isto: já que não pode ficar pelado, como já fez um candidato paranaense - pois se se despisse em público perderia o voto até de sua esposa, se é que a possui - Enéas Carneiro voltou a defender o indefensável. Ele quer que o Brasil desenvolva a bomba atômica! A primeira aparição do candidato do Prona na propaganda eleitoral gratuita na TV teve o efeito de uma implosão: ele continua com sua voz gutural, e suas feições de bicho-papão ficaram ainda mais acentuadas com sua barba desgrenhada, longas demais para seu porte e rosto atarracados. De 1989, quando fez sua aparição triunfal baseada no bordão ‘‘Meu nome é Enéaaaass’’, lá se foram nove anos - e a idade, que não perdoa ninguém, foi caprichosamente maldosa para com ele.
O bom senso aconselhava que Enéas se retratasse das afirmações que fez há cerca de um mês, defendendo a inclusão do País entre os detentores da tecnologia nuclear para fins bélicos, mas ele bateu o pé, quer porque quer A Bomba, A Bomba!, para impedir, segundo ele, que nos tornemos reféns das potências nucleares. Para evitar, ainda segundo ele, que conosco ocorra tragédia semelhante à de Hiroshima e Nagasaki. ‘‘Se o Japão tivesse a bomba, os Estados Unidos não fariam o que fizeram’’, disse (mais ou menos) durante sua trágica aparição na TV.
Enéas tem o direito de dizer o que quiser, e nós de acreditarmos no que quisermos - que cada um se responsabilize pelo que diz e pensa. Baseado nessa premissa, ouso expressar o que penso - Enéas foi o humorista da eleição de 89, o bufão da seguinte e converteu-se, nesta, no bobo da corte político-eleitoral brasileira. Enéas é a personificação de Cacareco, o hipopótamo que se virou, durante anos, em amuleto do eleitor carioca frustrado com a classe política.
Enéas não é político, é a antítese do, o palhaço que se traveste de político para sabe-se lá que objetivos. Se sua finalidade for a de arremedar o político para enfatizar suas deficiências e, através dessa simulação, chamar a atenção do eleitorado para os vícios de uma classe, sua missão, então, pode ser compreendida e seus cacoetes, absolvidos. Mas se ele se encara com seriedade, então, perdoem-me seus seguidores: o nacionalismo extremado, o radicalismo que expressa em suas atitudes, a intransigência que empresta à sua voz, ou que sua voz denota, revelam uma personalidade incapaz de assumir uma função pública, sobretudo a presidência da República, que requer acima de tudo o bom senso e o dom da negociação.
Assistimos recentemente às demonstrações doentias de entusiasmo das populações da Índia e do Paquistão depois que os governos desses dois países realizaram, com sucesso, experiências nucleares. Índia e Paquistão não são modelo de harmonia social interna e de relações diplomáticas fraternas. Os dois países odeiam-se desde o nascimento, isto é, desde 1947, quando a Grã-Bretanha lhes concedeu a independência.
Se foram as experiências desses países que deram a idéia luminosa a Enéas de defender a bomba atômica para o Brasil, com certeza ele será muito bem-vindo lá, do outro lado do mundo. Enéas ficará muito bem de turbante e de sari. E já tem a barba ideal para confundir-se com um patriarca sikhi, uma das minorias indianas que habitam o norte do país. E se quiser ganhar o voto dos hindus, que compõem a maioria, pode ficar pelado, que eles estão acostumados...
- JOSÉ ANTONIO PEDRIALI é jornalista da Folha

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