Já passando da hora de Sarney deixar comando
Já está deixando a nação indignada o clima de impasse motivado pela insistência do senador José Sarney em manter-se na presidência do Senado. Para ele, um escândalo a mais não faz diferença, porque acima de tudo está seu interesse em continuar no poder. Mas a questão extrapola os limites circunscritos pelas paredes do Parlamento, caiu nas más graças do povo e assumiu proporção que já faz rachaduras no corporativismo interesseiro do PMDB. Mais que isso, um número cada vez maior de parlamentares já não dá ouvido aos clamores do Planalto em defesa do velho cacique.
Se o astuto político tivesse a dignidade que se exige de um homem público, já teria renunciado ao comando, e não só neste ponto culminante a que os maus ventos (provocados por ele mesmo) o levaram, mas também por outros casos. No momento são 11 as ações que pesam sobre ele no Conselho de Ética.
Hoje ou amanhã algo deve acontecer, porque já se fala em sabotar o senador e esvaziar as sessões sob sua presidência. Longe de supor-se um golpe, a batalha que se trava para defenestrar Sarney é uma medida saneadora. Coisas ridículas são ouvidas, e elas seriam irrelevantes se não partissem de onde partem. Uma, do presidente Lula, ao declarar (em defesa do senador) que ''estão tentando cassar pessoas por asfixiamento''; outra, do presidente da Câmara Federal, o partidário peemedebista Michel Temer, ao referir-se ironicamente ''...àqueles poucos que perderam espaço político e apostaram na fama efêmera oriunda de acusações vazias''. E indica aos seus que se rebelam, destacadamente Pedro Simon (RS), Jarbas Vasconcelos (PE) e Garibaldi Alves (RN), os três do PMDB, que se desfiliem e assim ''o partido ficará mais coeso e mais musculoso''. Já se sabe o sentido dessa coesão e dessa musculatura. Agora será o senador Marco Maciel (DEM-PE), da ala dos bons, que tentará demover Sarney de sua relutância. O irônico é que fala-se em evitar ''um constrangimento para ele'' se as sessões passarem a ser boicotadas, mas convenha-se que o clima já é pior que isso, e Sarney não se molesta. Certos políticos já estão imunes de vergonhas do gênero, bastando-lhes a permanência no poder.
Depois da posse de Temer na boleia da Câmara e de Sarney no Senado estabeleceu-se uma ponte mais curta entre as duas Casas, e com essa crise o Congresso inteiro ficou paralisado. Se a operância já era baixa, nada mais de positivo se discute ali. Se com ou sem Sarney a empalidecida imagem dos parlamentos não sofrerá grande transformação para melhor, a presença dele na presidência do Senado já se converteu num entulho que precisa ser removido.





