Já não temos mais Vilanova Artigas
Outro dia, o inesperado fez-me uma surpresa: ouvindo músicas aqui e ali, de repente, meu baú de lembranças foi chacoalhado com toda força: Toreador e Andaluzia, de Anton Rubinstein, entrou suavemente pelos meus ouvidos e as lembranças foram se movendo em minha mente cada vez com maior velocidade era o tema musical do nosso querido e saudoso Cine Ouro Verde.
Era domingo, dia de matinê! A sessão para a criançada começava às 10 horas uma série de pequenos filmes antigos do "Gordo e o Magro", desenhos inesquecíveis de Disney ou de Hanna-Barbera, velhos filmes de cowboys...
Deixávamos a bela e elegante sala de espera, subíamos correndo (todo moleque está sempre correndo) as escadarias e invadíamos o enorme salão, sempre pisando no carpete macio e silencioso. Sentávamos nas poltronas Cimo, basculantes, e ficávamos balançando para lá e para cá, falando sem parar. Era a mais pura excitação e alegria.
Então, de repente e misteriosamente, as lâmpadas piscavam e a meninada entrava em delírio, gritando e assoviando... Era o sinal de que o filme ia começar. As lâmpadas iam se apagando suavemente, bem devagarzinho, todas ao mesmo tempo, e a penumbra tomava conta do salão. Toreador e Andaluzia enchia o ar com seus acordes maravilhosos, e as ondulações decorativas das paredes acendiam luzes escondidas formando clarões coloridos roxo, verde, vermelho, azul...
Então, a magnífica cortina de veludo vermelho a mais bela que eu já vira, começava a se abrir suavemente e o brilho da projeção explodia na tela branca como um relâmpago. Nesse momento, como por milagre, assim que o som de Toreador e Andaluzia ia diminuindo, também ia se suavizando a gritaria da meninada, até que só os sons do filme e o pulsar de excitados coraçõezinhos podiam ser ouvidos.
Eu era um menino de apenas 9 anos vindo do interior jamais havia visto um prédio, um trem ou avião, nem parque de diversões e muito menos sabia que existia cinema tudo em Londrina parecia sonho. Foi assim que, em 1959, eu entrei, pela primeira vez, em um cinema no Cine Ouro Verde!
As emoções se precipitavam a cada cena, a cada lampejo que emanava da tela gigante. Tinha a nítida impressão que cowboys, cavalos, automóveis, aviões e trens iam invadir a sala a qualquer momento, tamanho o realismo das imagens para meus olhos infantis. E quando saí daquele imenso salão estava tão feliz que não conseguia saber pra que lado ir... a mão protetora de minha irmã me salvou.
Infelizmente, por motivos complexos, os cinemas foram perdendo o carisma, foram fechando como o Cine Londrina, que já fora um imponente Cinerama, o Cine Vila Rica, que virou igreja evangélica, o Cine Augustus com sua elegante galeria, o Cine Joia, consumido pelas chamas, o Cine Brasília...
O Cine Ouro Verde foi entregue aos "cuidados" da Universidade Estadual de Londrina, e foi lentamente sendo depredado primeiro retiraram cadeiras para ampliar o palco para grandes peças e musicais que nunca aconteceram; depois, trocaram as majestosas poltronas basculantes Cimo, por poltronetes de qualidade muito inferior, o carpete silencioso desapareceu, a maravilhosa cortina de veludo vermelho sumiu... E o chão foi forrado com uma madeira fedorenta que ninguém suportava.
Os filmes foram escasseando, as grandes peças e musicais não vingaram, até que, num último gemido de agonia, o cinema da minha infância, das minhas lembranças e do Toreador foi consumido pelas chamas. Dizem que vão restaurá-lo, eu duvido, afinal, nós não temos mais Vilanova Artigas.
PAULO ANDRÉ CHENSO é médico em Londrina
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