O nome tão importante
O que há num nome? O que denominamos ‘‘rosa’’ teria doce perfume não importa como se chamasse. (Shakespeare)
Não sei se é verdade ou invenção, mas um dos ‘‘papas’’ da propaganda, David Ogilvy, relata, em sua autobiografia ‘‘As Confissões de um Publicitário’’, que, certa vez, insistia junto a um cliente que um anúncio deveria conter toda a informação necessária para persuadir o comprador potencial de um produto, mesmo que o texto tivesse de ser longo. O cliente teimava que ninguém leria um anúncio muito longo. Ogilvy propôs uma aposta: escreveria um anúncio-surpresa que o cliente leria na sua totalidade. Combinou, então, com o ‘‘New York Times’’ para veicular no exemplar de assinante que seria entregue na casa do cliente um anúncio de página inteira. O título era: Leia a emocionante história da vida de Fulano de Tal...
‘‘Fulano de Tal’’ - claro - era o próprio cliente, que deve ter passado bons momentos lendo sua própria biografia, narrada com o talento de Ogilvy, um dos maiores redatores da história da propaganda.
Lembro-me de que já li muitas vezes - em textos sobre jornalismo - a menção à emoção que cada um de nós sentiu, geralmente em algum momento da juventude, ao ver - pela primeira vez - o nosso próprio nome em letra de forma, publicado em jornal ou revista. Pode ter sido a participação numa festinha, ou a pequena façanha esportiva, o primeiro lugar no concurso de poesia ou oratória, no colégio - ‘‘brilharecos’’ como dizia meu pai.
Os estudiosos das ciências do comportamento chegaram a determinar que a percepção das pessoas é seletiva e apresentam, como exemplo, o fenômeno de que a maioria delas consegue distinguir o próprio nome, mesmo pronunciado por alguém em meio a um burburinho vocal, num coquetel ou recepção. De fato, na escola, tive uma namorada chamada Ilka - que, mecanicamente, virava-se sempre que duas pessoas passavam, conversando, e uma delas dizia: E aí, o camarada... etc. etc. Na prosódia brasileira, diz-se ‘‘ia-íuca-marada’’ e a garota, é claro, ‘‘ouvia’’ o nome dela.
Vieram-me essas reflexões, durante as festas de fim-de-ano, ao receber tantas mensagens de tanta gente simpática que se lembrou de mim - e de ponderar sobre os quase infinitos modos como se pode escrever, num envelope, o nome de uma pessoa que recebeu nada menos do que cinco, no batismo: José Roberto Whitaker Penteado Filho. Para complicar, um deles é de origem inglesa...
Sempre me senti incomodado por esses nome e sobrenome duplos - e mais ainda quando, ao viajar pela Europa e Estados Unidos, descobri que quase todas as pessoas sobreviviam com apenas um nome e um sobrenome: Albert Einstein, John Kennedy, Nelson Rockefeller, Charles De Gaulle, Winston Churchill, John Smith ou Pierre Dupont...
O que fazer? Faz parte da nossa herança cultural recebermos, no batismo, nomes que são quase biografias: na relação de funcionários da ESPM/Rio, onde trabalho, além de mim, lá estão João Baptista de Paula Vilhena Soares, Ilsa Josefa Vanderlei Ribeiro da Silva e Justo Glauco Rodrigues de Araujo Mesquita e mais quatro brasileiros condenados a carregar cinco epítetos. No dia-a-dia, eles são ‘‘João’’, ‘‘Ilsa’’ e ‘‘Glauco’’ simplesmente. Mas forneço a estatística completa para os leitores com espírito científico: são 75 funcionários e professores. Desses, a grande maioria - 35 - têm três nomes (47%); a segunda categoria mais popular é a de quatro nomes: 25 pessoas, ou 33%. Apenas 7 pessoas têm dois nomes; mesmo número da categoria com cinco nomes, perfazendo, com 10% cada uma, os 100% do total pesquisado.
Costumo recomendar à minha secretária que tenha muito cuidado com os nomes das pessoas. Geralmente um Luiz com z fica ofendido se V. escrever seu nome com s. Há Elsas e Elzas. Cátias e Kátias. Cristinas, Christinas e Christines. Sales, Salles, Anas e Annas, Hildas e Ildas, Raimundos, Raymundos. Minha namorada Ilka poderia ter sido Ilca. São muitas as armadilhas e poucos os recursos: em geral só um telefonema ao interessado, secretária ou familiares pode esclarecer a dúvida.
Por tudo isso, não deve ser fácil a vida de quem lida com mala direta. Fico imaginando quanta correspondência não vai diretamente para o lixo porque o que deveria haver num simples nome não houve ou foi, de alguma forma, conspurcado...
- J. ROBERTO WHITAKER PENTEADO é diretor da Escola Superior de Propaganda e Marketing (Rio de Janeiro)

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