J. Roberto Whitaker Penteado
Carreira
Faz alguns anos, estava guiando o carro na Av. Visconde de Pirajá, no Rio, o trânsito estava congestionado, e vi um velhinho atravessar a rua levando uma bolsa de compras. Julguei reconhecê-lo e, de fato, era Armando de Moraes Sarmento. Para você, que é jovem e não sabe, AMS foi o mais importante publicitário brasileiro de todos os tempos. Em termos mundiais. Ele foi o principal executivo presidente nos Estados Unidos, da Interpublic, holding da McCann-Erickson, a maior agência do mundo.
Conheci-o nas funções, ocupando uma sala do tamanho de uma quadra de tênis, na Avenida das Américas, em Nova York. Eu tinha 18 anos e Sarmento recebeu-me porque era muito amigo de papai. Podia ter alterado minha vida para sempre. Podia ter-me dado um emprego, ou me encaminhado para um cliente, ou, até mesmo, nada disso ou outra coisa que sei? pois me parecia alguém que pudesse escolher entre a vida e a morte dos outros. Não fez nada disso, a visita foi de cortesia e tomei o meu caminho e ele o dele.
Meu caminho, sei qual foi. O dele, apenas suspeito. Eventualmente, foi despedido, quando Marion Harper, o Deus da McCann, deixou de sustentá-lo. Tentou morar na Flórida, usufruindo de riquíssima aposentadoria, num daqueles campos de concentração para velhos (não havia, ainda, terceira idade), mas não aguentou muito tempo. Voltou para o Brasil, trabalhou com os filhos, ocupou, de novo, a presidência da Heublein e eventualmente voltou a fazer compras, sozinho, em Ipanema. Talvez tenha morrido feliz.
Conheço centenas de histórias muito mais tristes do que a de Armando Sarmento. Histórias de pessoas gente de corpo e alma, como você e eu que acreditaram, em algum momento, que fazer parte de uma instituição no caso, multinacionais era o que dava sentido à vida. E morreram sós e tristes, ou as duas coisas.
Tentando entender o que estava (ou dava) errado, percebi que, essencialmente, o descarrilho ocorria porque, embora muitas pessoas buscassem esse sentido, ou a felicidade, as organizações não tinham o objetivo de fazer felizes as pessoas, mas sim de perpetuar-se a si próprias, através de uma quase sempre perversa distribuição do poder. Do poder que, nas organizações, as pessoas tinham umas sobre as outras.
Como na experiência sobre sadismo, naquela universidade americana ao exercitar o poder impessoal para impulsionar suas carreiras, a maioria das pessoas fingia não perceber que faziam sofrer os semelhantes e, às vezes, matavam-nos. Isso só ocorre nas grandes organizações como as multinacionais e o governo não nas pequenas.
Assim, quando fui despedido da LOréal francesa, em 1976, para abrir caminho para o presidente da empresa portuguesa, que havia sido nacionalizada, e dar-me conta que carreira podia ser algo mais do que fringe benefits e home leave, tive um tempo para refletir sobre isso.
Otto Scherb ajudou, convidando-me, pelo telefone, para tentar salvar uma escola que ia fechar as portas, no Rio, a ESPM. O resto graças a Deus e aos seus múltiplos anjos é história. O pequeno espaço profissional da ESPM representou a prática perfeita de conciliar bons resultados e intensa diversão para mim e as dezenas de companheiros que deixaram, cada um, a sua marca no hoje imponente prédio que a escola ocupa, na esquina das ruas do Rosário e da Quitanda.
Das duas salas na Praia de Botafogo, e dois funcionários, a ESPM tornou-se uma empresa de porte médio e objetivos grandes, empregando meia centena de pessoas e uma centena e meia de professores. Cresceu. Tornou-se negócio, e de repente eu estava, de novo, numa carreira ameaçadoramente parecida com as anteriores. Raciocinei, então: tudo, menos o déjá vu. Essa última fase da minha carreira, quero que seja como aconselhava Carlito Maia: a passeio e não a negócios.
Aqui vou eu.
- J. ROBERTO WHITAKER PENTEADO é professor e dirigente de instituição universitária no Rio de Janeiro





