Carreira
Faz alguns anos, estava guiando o carro na Av. Visconde de Pirajá, no Rio, o trânsito estava congestionado, e vi um velhinho atravessar a rua levando uma bolsa de compras. Julguei reconhecê-lo e, de fato, era Armando de Moraes Sarmento. Para você, que é jovem e não sabe, AMS foi o mais importante publicitário brasileiro de todos os tempos. Em termos mundiais. Ele foi o principal executivo – presidente – nos Estados Unidos, da Interpublic, holding da McCann-Erickson, a maior agência do mundo.
Conheci-o nas funções, ocupando uma sala do tamanho de uma quadra de tênis, na Avenida das Américas, em Nova York. Eu tinha 18 anos e Sarmento recebeu-me porque era muito amigo de papai. Podia ter alterado minha vida para sempre. Podia ter-me dado um emprego, ou me encaminhado para um cliente, ou, até mesmo, nada disso ou outra coisa – que sei? – pois me parecia alguém que pudesse escolher entre a vida e a morte – dos outros. Não fez nada disso, a visita foi ‘‘de cortesia’’ e tomei o meu caminho e ele o dele.
Meu caminho, sei qual foi. O dele, apenas suspeito. Eventualmente, foi despedido, quando Marion Harper, o Deus da McCann, deixou de sustentá-lo. Tentou morar na Flórida, usufruindo de riquíssima aposentadoria, num daqueles campos de concentração para velhos (não havia, ainda, terceira idade), mas não aguentou muito tempo. Voltou para o Brasil, trabalhou com os filhos, ocupou, de novo, a presidência da Heublein e – eventualmente – voltou a fazer compras, sozinho, em Ipanema. Talvez tenha morrido feliz.
Conheço centenas de histórias muito mais tristes do que a de Armando Sarmento. Histórias de pessoas – gente de corpo e alma, como você e eu – que acreditaram, em algum momento, que fazer parte de uma instituição – no caso, multinacionais – era o que dava sentido à vida. E morreram sós e tristes, ou as duas coisas.
Tentando entender o que estava (ou dava) errado, percebi que, essencialmente, o descarrilho ocorria porque, embora muitas pessoas buscassem esse sentido, ou a ‘‘felicidade’’, as organizações não tinham o objetivo de fazer felizes as pessoas, mas sim de perpetuar-se a si próprias, através de uma quase sempre perversa distribuição do poder. Do poder que, nas organizações, as pessoas tinham umas sobre as outras.
Como na experiência sobre sadismo, naquela universidade americana – ao exercitar o poder impessoal para impulsionar suas carreiras, a maioria das pessoas fingia não perceber que faziam sofrer os semelhantes e, às vezes, matavam-nos. Isso só ocorre nas grandes organizações – como as multinacionais e o governo – não nas pequenas.
Assim, quando fui despedido da L’Oréal francesa, em 1976, para abrir caminho para o presidente da empresa portuguesa, que havia sido nacionalizada, e dar-me conta que ‘‘carreira’’ podia ser algo mais do que fringe benefits e home leave, tive um tempo para refletir sobre isso.
Otto Scherb ajudou, convidando-me, pelo telefone, para tentar salvar uma escola que ia fechar as portas, no Rio, a ESPM. O resto – graças a Deus e aos seus múltiplos anjos – é história. O pequeno espaço profissional da ESPM representou a prática perfeita de conciliar bons resultados e intensa diversão para mim e as dezenas de companheiros que deixaram, cada um, a sua marca no hoje imponente prédio que a escola ocupa, na esquina das ruas do Rosário e da Quitanda.
Das duas salas na Praia de Botafogo, e dois funcionários, a ESPM tornou-se uma empresa de porte médio e objetivos grandes, empregando meia centena de pessoas e uma centena e meia de professores. Cresceu. Tornou-se negócio, e – de repente – eu estava, de novo, numa ‘‘carreira’’ ameaçadoramente parecida com as anteriores. Raciocinei, então: tudo, menos o déjá vu. Essa última fase da minha carreira, quero que seja como aconselhava Carlito Maia: a passeio e não a negócios.
Aqui vou eu.
- J. ROBERTO WHITAKER PENTEADO é professor e dirigente de instituição universitária no Rio de Janeiro

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