Brasília A cúpula do Itamaraty acompanha a escolha do novo presidente temendo uma guinada protecionista no País a partir de 2003 e a geração de um ambiente de incertezas sobre as posições do Brasil na área internacional. A diplomacia está preparada para uma reviravolta completa na orientação da política externa mesmo que, em um eventual segundo turno, o eleito seja o tucano José Serra. Mas considera inconsequente a mudança radical nos rumos seguidos na gestão Fernando Henrique Cardoso.
Nas últimas semanas, os discursos dos candidatos vêm sendo analisados com extremo cuidado no prédio principal do Itamaraty. A avaliação dos negociadores é que a guinada protecionista não seria dada por uma decisão de elevação de tarifas e outras barreiras às importações, uma vez que a própria taxa de câmbio funciona como poderosa trava às compras externas.
Mas seria o reflexo da política industrial anunciada pelos principais candidatos, assentada em benefícios fiscais e em subsídios embutidos na concessão de crédito. Outro elemento seria a posição mais defensiva do País, sugerida pelos candidatos, nas negociações da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), entre Mercosul e União Européia e na nova rodada da Organização Mundial do Comércio (OMC).
Essas iniciativas, para os cardeais do Itamaraty, atenderiam as demandas de setores empresariais mais conservadores. Portanto, teriam o poder de aplacar suas resistências ao novo governo no caso do candidato do PT, Luíz Inácio Lula da Silva ou de reforçar seu apoio no caso do candidato do governo, José Serra. Mas seriam percebidas externamente como uma opção do Brasil a um fechamento ainda maior de sua economia.
Como consequência, aumentariam as incertezas em relação às posições assumidas pelo País nas negociações internacionais e travaria essas discussões. O resultado prático disso, na opinião de experientes negociadores, será a perda das chances de conquista de maior acesso dos produtos brasileiros a mercados hoje mais fechados o que afetará os projetos de ambos os candidatos de aumento das exportações, como meio de gerar mais empregos, de elevar a atividade econômica e de diminuir o rombo nas contas externas.
''O risco é algo que faz parte do dia-a-dia das Nações. O problema se dá quando se passa de um ambiente de risco para outro, de incertezas. Porque as incertezas paralisarão os nossos interlocutores'', afirma uma fonte da diplomacia.
Para os mesmos cardeais, uma mudança profunda na orientação da política externa somente é ''aceita'' e assimilada pelo resto do mundo quando há uma alteração de grande envergadura no plano interno como a Revolução Cubana, de 1959 ou no cenário internacional.
Caso contrário, defendem eles, é preciso manter a coerência e evitar ao máximo as incertezas sobre as posições do País. Conforme afirmaram, o problema está nas incoerências dos discursos de Serra e de Lula sobre pontos específicos da política externa brasileira.

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