Itamar vai testemunhar contra FHC
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domingo, 22 de março de 1998
Agência Estado 
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Pé na estradaItamar (segundo a partir da dir.), entre Brizola e Lula: ex-presidente vai participar de caravana que fará campanha contra FHCO ex-presidente Itamar Franco disse ontem, no Rio, que vai testemunhar, a convite do PT, contra o presidente Fernando Henrique e o ministro dos Transportes, Eliseu Padilha, no processo no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que investiga o uso da máquina administrativa por parte do governo federal para influenciar os resultados da convenção do PMDB, realizada há 15 dias. A exemplo do senador Roberto Requião (PMDB-PR), Itamar decidiu aceitar o pedido feito ontem pelo senador Eduardo Suplicy (PT-SP), um dos autores da representação no TSE, para depor contra Fernando Henrique.
Se me chamarem para testemunhar no processo, eu vou, porque o que aconteceu na convenção do PMDB foi uma coisa muito grave, declarou Itamar, depois do encontro com o candidato do PT à Presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva, com o presidente nacional do PDT, o ex-governador Leonel Brizola, virtual candidato a vice-presidente na chapa encabeçada por Lula, e com parlamentares e líderes do PT, PDT, PSB e PC do B, no Hotel Glória, zona central do Rio. No encontro, Itamar aceitou também fazer viagens pelo País com Brizola e Lula, a partir de abril, em manifestações de oposição a Fernando Henrique.
Vai ser uma espécie de caravana da oposição e a primeira viagem será para o Rio Grande do Sul, em abril, ao lado de Brizola e possivelmente de Lula. Itamar pretende, naquele Estado, apresentar o governador do Rio Grande do Sul, Antonio Britto (PMDB), como um traidor e um desleal. No Rio Grande do Sul, não há força que me faça apoiar o governador Britto, declarou o ex-presidente, que se considera traído por Britto, ministro da Previdência no governo Itamar.
Eu já sei que ele (Britto) vai me trair novamente. Agora me enfiaram a faca nas costas, não podem mais enfiar outra, disse o ex-presidente, deixando claro que é um compromisso político e pessoal fazer uma ofensiva contra Fernando Henrique e os governistas do PMDB, em virtude dos atos que considerou fascistas e paramilitares na convenção do partido. Novamente, ele não poupou críticas aos aliados peemedebistas do governo federal, aos quais chamou de bandidos.
A reunião de ontem não selou nenhum acordo de apoio de Itamar à chapa de Lula e Brizola, mas serviu para aproximá-los para um futuro acordo eleitoral. O ex-presidente ainda vai tentar, no encontro nacional do PMDB em junho, aprovar a tese da candidatura própria do partido para poder concorrer à Presidência da República.
Ele garantiu, no entanto, que sua disposição em disputar a convenção de junho não inviabiliza a união com setores da oposição neste momento. Independentemente de eu ser ou não candidato, nada me impede de estar neste ou naquele palanque, declarou Itamar. Também já estão praticamente definidas as viagens de Itamar ao Paraná, a pedido de Requião, a Pernambuco, acompanhando o governador daquele Estado, Miguel Arraes (PSB), e a São Paulo. O ex-presidente poderá ir a São Paulo fazer campanha para a deputada Martha Suplicy, caso ela seja escolhida candidata ao governo de São Paulo.
O encontro no Hotel Gloria, que aconteceu no salão Debret, onde Itamar costumava despachar quando era presidente, foi marcado por críticas e acusações contra Fernando Henrique. Sentado entre Brizola e Lula e rodeado de líderes do PSB, PDT, PT e PC do B, Itamar parecia sentir-se à vontade com colegas de oposição que foram lhe prestar solidariedade em razão dos insultos sofridos na convenção.
Logo após a reunião, que durou cerca de uma hora, Lula citou pesquisas publicadas ontem nos jornais para dizer que o eleitorado está percebendo as mentiras de Fernando Henrique. O presidente diz que no Rio há pleno emprego, declarou Brizola, em tom de ironia. Lula acrescentou: só se for porque Fernando Henrique desce na base aérea (do Galeão) e lá está todo mundo empregado, arrancando risos de Itamar e dos correligionários.
Todas as lideranças saíram satisfeitas do encontro, que começou às 11h. Brizola deixou o Hotel Glória empolgado por ter obtido de Itamar o compromisso da viagem a seu Estado, o Rio Grande do Sul. Ao comentar a opinião do ex-presidente de que Fernando Henrique é um monstro, Brizola disse que tem serias dúvidas sobre a harmonia mental do presidente. Quando a vontade e a ambição são muito fortes, elas pressionam as outras áreas da mente.
Itamar disse que, se for convocado pelo corregedor-geral de Justiça Eleitoral, ministro Nilson Naves, vai contar em depoimento tudo o que presenciou na convenção do PMDB. Para ele, a fotografia com a imagem sorridente de Fernando Henrique ao lado dos governistas do PMDB, logo após a decisão do partido de apoiar o presidente na eleição deste ano, é um sinal de que há indícios de uso da máquina pública para garantir o resultado favorável ao governo. Às vezes, a fotografia vale muito mais do que as palavras. Ele acusou o presidente da Câmara, deputado Michel Temer (SP), de comportar-se de forma pouco digna ao não tentar impedir a baderna.
Itamar deverá repetir, se depor no processo, a denúncia de que convencionais do PMDB foram corrompidos pelo governo. O testemunho de Itamar tem um peso muito importante para o processo, declarou Suplicy, que terça-feira formaliza no TSE o pedido de adendo a representação para que Itamar e Requião sejam testemunhas no caso. Na representação, o PT pede que o TSE declare Fernando Henrique e Padilha impedidos de concorrer nestas eleições e nos próximos três anos por abuso do poder político.


