Itamar tem culpa? - Rogério Lima
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 15 de janeiro de 1999
Rogério Lima 
Em 1822, quando o Brasil proclamou a sua independência, a Inglaterra - a grande potência econômica e bélica da época - para reconhecer a condição de país independente, obrigou o Brasil a assumir a responsabilidade por uma dívida de Portugal, de 5 milhões de libras. O País nascia endividado e permanece nesta condição até hoje, graças, sobretudo, à submissão das autoridades federais e ao interminável domínio internacional, contra o qual poucos tiveram a coragem de manifestar oposição, talvez por temor em receber o mesmo castigo que Tiradentes recebeu quando se rebelou contra a exploração portuguesa ao Brasil.
Há 35 anos, a dívida externa brasileira era de apenas US$ 3 bilhões. Em 1973 ela passou a ser de US$ 9 bilhões. No início da década de 80 pulou para cerca de US$ 80 bilhões. Hoje, já passa com folga a casa dos US$ 300 bilhões. Durante todo esse tempo, o País foi tomando empréstimos e mais empréstimos de banqueiros internacionais, especuladores e exploradores da nossa condição quase eterna de país em desenvolvimento.
Fiz esta introdução histórica-econômica para poder chegar ao assunto que mais tem mexido com a atenção do País: a moratória de Minas Gerais, anunciada no início de janeiro pelo governador Itamar Franco. Bastou fazer o anúncio para que, da noite para o dia, o governador mineiro fosse transformado no inimigo público número 1. Creditam a ele a responsabilidade pela crise mundial, pela queda nas bolsas de valores de todo o mundo, a recessão econômica e tantos outros fatores que até o final do ano passado vinham acontecendo e parece que ninguém percebia.
Itamar anunciou a moratória, o governo federal bloqueou o repasse do Fundo de Participação dos Estados. Castigo para Minas Gerais. Itamar anunciou a moratória, o governo federal jogou nele toda a culpa pelos desacertos que sua equipe econômica comete e pela bagunça provocada pelo modelo econômico adotado no Brasil. Castigo para Itamar, que nem aparece na imprensa para manifestar suas posições.
Não tenho procuração para defender Itamar Franco e discordo de algumas posições políticas do governador, mas querer crucificá-lo, simplesmente porque durante 90 dias o seu Estado vai deixar de pagar parte da dívida que tem para com o governo federal, é um castigo que não aceito, repudio e acredito que pode estar sendo imposto para desviar a atenção da opinião pública de outros assuntos múltiplas vezes mais graves e perniciosos ao povo brasileiro e que merecem pouca ou nenhuma manifestação por parte do governo federal.
Por exemplo, o rendimento médio dos trabalhadores paulistanos com carteira assinada, num período de dois anos, entre setembro de 1996 e o mesmo mês de 1998, caiu de R$ 908,00 para R$ 853,00. A produção industrial no País, em 1998, registrou um resultado negativo de 1,5%, sendo que a indústria de bens de consumo duráveis (eletrodomésticos, móveis etc) reduziu sua produção em mais de 20% no ano passado. Pesquisa do IBGE indica que o comércio varejista do Rio de Janeiro registrou, no ano passado, resultado negativo de -5%: no Recife o índice foi de -20% e em Salvador -15%. A safra agrícola de grãos que, segundo expectativas do governo federal chegaria a 76,5 milhões de toneladas, não deve ultrapassar, segundo o IBGE, 75,2 milhões de toneladas. O desemprego aumenta mês a mês, conforme pesquisas do IBGE que a imprensa anuncia. E para concluir esta sequência de informações, temos uma significativa e perigosa queda das reservas internacionais, que fecharam 1996 com pouco mais de US$ 60 bilhões, vieram despencando mês a mês e hoje estão abaixo de US$ 35 bilhões, índice reconhecido como perigosíssimo até mesmo pelas autoridades econômicas federais. O Itamar tem culpa?
O Brasil, reconhecidamente não está bem, passa por um período turbulento, provocado sobretudo pela enorme dependência de capitais estrangeiros e por posições equivocadas da equipe econômica do governo federal, como elevar abruptamente a taxa de juros, criando problemas internos para todos os setores da economia nacional, apenas para tentar atrair capital externo. O Itamar tem culpa?
Com tudo isso acontecendo, é inacreditável que o anúncio de moratória de um Estado brasileiro, por 90 dias, ganhe o centro das atenções. A casa está desmoronando e trocam-se todas as velhas maçanetas das portas por outras novas e reluzentes. Isto é o Brasil de hoje, onde fantasias superam a dura realidade, e a cidadania e a soberania ficam jogadas na sarjeta, sem valor algum. O brasileiro está ficando mais pobre para que os banqueiros internacionais possam continuar comendo lagosta e caviar e bebendo Moet Chandon. Culpa do Itamar?
Na verdade, alguém tem culpa por tudo isso sim. Mas quem? Será que não é você?
ROGÉRIO LIMA é vice-prefeito de Palmeira (PR)


