Condenado injustamente, Sócrates recusou a salvação que lhe propunham pela fuga, preferindo morrer respeitando as leis que viver transgredindo-as. Condenado justamente pela opinião pública - basta ler as colunas de leitores de jornais - pelo fato de decidir fazer uma moratória em Minas Gerais e, com ela, abalar o já claudicante conceito brasileiro nas Bolsas internacionais, Itamar prefere viver de maneira arrogante e desafiadora a cumprir os compromissos éticos e morais que um governante deve assumir para com seu povo e seu país. Não há dinheiro para pagar os compromissos, diz ele. Mas há um valor chamado responsabilidade que obriga os homens públicos a buscarem as soluções mais adequadas e civilizadas. O diálogo com o governo federal, por exemplo, seria o caminho mais viável para discutir alternativas.
Quando a lei é injusta, é justo combatê-la e pode ser justo, até, violá-la. Isso em caso extremos. Não é o caso de Minas Gerais, como não é o caso de outros Estados que apresentam as mesmas e sérias dificuldades de receitas cada vez menores para atender aos compromissos. Somos uma Federação e, como tal, há que se estabelecer mecanismos capazes de administrar a quebradeira geral. O erro de Itamar, mais uma vez, está assentado no extremo egocentrismo que patrocina suas idéias e decisões. Ele faz da arrogância e do destempero ferramenta de ação política. Tem-se aproveitado do próprio folclore sobre suas atitudes intempestivas para montar um bastião do marketing. Parece conviver bem com a máxima: falem mal, mas falem de mim.
A atitude de Itamar denuncia a estupidez de uma administração calcada exclusivamente sobre bases emocionais. Não comove o discurso de que, ao pagar à União o débito do Estado, deixaria de ter o dinheiro para pagar os funcionários e a tropa que dá segurança ao povo. Talvez não tenha imaginado que o bem da população mineira seria ficção ou uma verdade passageira, pois não dá para acreditar que, dentro de um país debilitado e desacreditado, houvesse espaço para uma ilha de tranquilidade, estabilidade e prosperidade. Caindo o País, caem os Estados e a queda mais trágica pega os maiores, como Minas. Nem o competente Henrique Hargreaves, chefe da Casa Civil do governo mineiro, imaginou que uma decisão, para ele tão singela e distante dos grandes centros financeiros internacionais, pudesse influir nas bolsas mundiais. Até fez piada com o caso. Esqueceu que a sóbria Minas Gerais, pela voz de um ex-presidente da República, faz parte do mundo globalizado.
Com sua primeira obra governamental, Itamar quis atingir alguns objetivos. Ferir o presidente Fernando Henrique, com sua raiva conservada na geladeira, tomar o lugar de Lula como o mais importante líder da oposição e escrever seu nome na primeira linha das candidaturas presidenciais em 2002. O recuo aparente de Itamar, quando começa a admitir a negociação com o Governo Federal, é tático. As críticas da opinião pública e da mídia têm sido tão fortes que o tornam mais flexível. Mas não se espere dele nenhum gesto de grandeza nos campos da modéstia, da solidariedade e do compromisso cívico para com o País. O civismo de Itamar é uma equação assim posta: primeiro, eu; segundo, eu; e depois de mim, sou eu.
Mas, o que está por trás de tudo isso? Uma maquinaria psíquica desajustada. Como ex-presidente, considera-se pai do Real, sente-se como governador mais importante que outros, e Fernando Henrique é apenas um sociólogo que ele colocou na presidência da República. Portanto, um homem que lhe deve favores. Sente-se traído apesar de ter sido agraciado com uma embaixada em Roma e o cargo de embaixador na OEA. ‘‘Fernando Henrique endureceu, vou também endurecer’’, diz Itamar.
Nem todos os governantes, infelizmente, carregam o dom da grandeza, que tem como linhas mestras a simplicidade, a modéstia, o despojamento, a capacidade de sentir-se igual aos outros, um ser humano, com defeitos e virtudes. Itamar entrou no Olimpo, de onde não quer mais sair. Passa longe de Guevara, que, um dia, disse: ‘‘Pode-se até endurecer, mas perder a ternura, jamais’’.

mockup