Pudesse, estaria eu na pequena Davos, livre desse calor insuportável que derrete minhas idéias, amortece minhas forças, indispõe meu espírito contra as tarefas do intelecto. Nos Alpes suíços, entre a alvura da neve e o charme do Primeiro Mundo, assistiria com prazer ao Fórum Econômico Mundial. Ficaria num cantinho bem quieta e comportada para ver o ouvir as elites do Planeta discutir, entre outros temas, o desaquecimento da economia norte-americana e o impacto desse fenômeno sobre o resto do mundo.
Em Davos eu assistiria às performances dos que produzem, dos que fazem, dos que tiveram êxito, dos que enriqueceram. Entre eles estão reis, presidentes, primeiros-ministros, grandes executivos. Ao lado dos vitoriosos veria os presidentes sul-americanos Andrés Pastrana (Colômbia) e o caudilhesco Hugo Chávez (Venezuela). Este último, pelo costumeiro discurso e atitudes terceiromundistas, faria, imagino, mais sucesso no Fórum Social Mundial, o encontro anti-Davos que ocorre paralelamente ao da Suíça, em Porto Alegre.
Outras autoridades, representantes de ONGs e estudantes desfilariam também ante meus olhos atentos e minha curiosidade em saber como eles, os bem-sucedidos, sugerem o ‘‘fechamento da brecha’’ entre ricos e pobres. Brecha, diga-se de passagem, que existe desde que o homem se entende como tal, e que agora mais do que nunca poderá ser atenuada diminuindo assim o doloroso e insuportável contraste entre miséria e prosperidade.
Lógico que em Davos não se discute nem se lembra da premonição fracassada de Karl Marx, segundo a qual haveria um atraente e simpático porvir globalizado de igualdade onde cada um seria o que quisesse, sistema que atenderia pelo nome de comunismo. E ao lembrar do fulgurante profeta que revolucionou o mundo com suas idéias, pergunto-me, num exercício de imaginação onde tudo é possível, se ele iria a Davos ou a Porto Alegre se acaso ainda estivesse vivo.
Penso e concluo: não há dúvida, Marx iria a Davos. Ah, se iria. Alguns indícios estão numa carta que ele escreveu, em 1879, a um russo, na qual demonstra ter sido um admirador da inovação tecnológica e um deslumbrado com a capacidade empreendedora dos capitalistas americanos, os yankees.
Nesta missiva, como sempre, Marx é categórico: ‘‘Seria mesmo uma grande infelicidade que a bela Califórnia fosse anexada aos mexicanos preguiçosos, que não saberiam o que fazer dela. Que os enérgicos yankees aumentem, pois, a moeda em circulação, explorando prontamente as minas de ouro que ali jazem e que, em poucos anos, eles concentrem, no lado mais bem colocado do Oceano Pacífico, uma população densa e um comércio desenvolvido, que criem grandes cidades, estabeleçam linhas de barcos a vapor, estradas de ferro de Nova York a São Francisco, que abram verdadeiramente pela vez primeira o Oceano Pacífico à civilização, conferindo assim ao comércio mundial, pela terceira vez na história, uma nova orientação’’. Desta feita a premonição deu certo.
Acrescente-se que Marx não estava nem aí se alguns californianos e texanos espanhóis iriam sofrer ou se ‘‘princípios morais’’ seriam prejudicados, pois termina sua carta perguntando ao tal russo: ‘‘Que importância tem isso diante de um acontecimento de porte mundial?’’.
É, sem dúvida Marx iria a Davos. Mesmo porque, segundo ele, a filosofia deve cessar de pensar o mundo para transformá-lo. Portanto, o verdadeiro marxismo é também, e talvez acima de tudo, uma doutrina de ação, e a ação ao que tudo indica está representada em Davos e não em Porto Alegre. Isso é palpável em termos de resultados sociais e econômicos das sociedades do Primeiro e do Terceiro mundos, cujas elites se fazem presentes nos encontros mundiais.
Bem, como já disse, gostaria de estar em Davos, e acrescento que adoraria ter poderes paranormais para poder perceber o espectro de Karl Marx rondando, entre os Alpes suíços, os yankees e outros representantes do capitalismo mundial. Mas não posso. Sou impedida por fatores financeiros, por acúmulo de trabalho e por responsabilidades familiares. Uma pena! Mas pelo menos, dirão meus leitores, ‘‘você podia ter ido a Porto Alegre’’.
Afinal, se Marx era chegado a uma doutrina da ação, algo bem dele paira sobre a capital gaúcha, pois o profeta era fundamentalmente do contra. Contra o mercado, a família, a religião, o passado, o futuro, contra tudo o que se queira. E o pessoal anti-Davos segue essa linha pois é contra o liberalismo, a globalização, o FMI, o McDonald’s, enfim, contra tudo, satisfazendo assim certas necessidades psíquicas do ser humano de ser contra.
Respondo que não tendo podido ir a Davos, bem que me senti tentada a dar uma chegada na capital gaúcha para ver os que discursam, os que se queixam, os que prometem, os que gritam. Sim, eu merecia ir pelo menos a Porto Alegre ver as elites da esquerda e seus expoentes intelectuais discursarem. Além do mais, poderia usufruir daquela enorme dose de lazer que vem embutida nesse tipo de encontro, o que me aliviaria um pouco do cansaço que padeço por conta do calor inclemente, sem esperança de férias ou distrações.
Mas infelizmente não deu para ir pelas mesmas razões acima enumeradas. Em todo caso, mesmo sem essas viagens maravilhosas, chego a algumas conclusões: 1) Os problemas das sociedades pobres não lhes chegam do exterior mas têm origem na sua própria cultura, portanto, o ‘‘mal’’ é de origem interna; 2) As chances de redução das desigualdades sociais residem no processo de globalização que permite maior integração e, portanto, mais oportunidades de melhoria das condições de vida para todos.
No mais, concordo com Klaus Schwab, criador e presidente do Fórum Econômico Mundial, que disse: ‘‘Nós acreditamos que moldar nosso futuro comum significa trabalharmos juntos, não gritar uns com os outros’’.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é escritora, socióloga e professora universitária
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