Iraque, vencidos e vencedores
Ao proclamar-se ontem vitorioso contra seus inimigos, tão logo foi anunciada a suspensão dos ataques contra seu país, o presidente do Iraque, Saddam Hussein, não estava exagerando. A Operação Raposa do Deserto, comandada por Estados Unidos e Grã-Bretanha, foi suspensa apenas um dia após a aprovação do impeachment do presidente Bill Clinton, e deixou em seu rastro inúmeras interpretações e também algumas certezas, especialmente a que revela o fracasso da diplomacia ocidental nas relações com o regime iraquiano, mesmo após a Guerra do Golfo. Por quatro longos dias o mundo ficou em suspense, apreensivo com o desenrolar dos ataques, envolto num daqueles momentos históricos em que o fim do diálogo é precipitado pela força das armas. Mesmo com a capital, Bagdá, repleta de escombros, Saddam, em sua posição de vítima, proclama, não sem razão, que está de pé e com apoio interno. Clinton, de seu lado, sustenta que os objetivos da ação bélica foram alcançados, mas, ainda no calor do impeachment, mal consegue disfarçar o peso da derrota que teve, dentro e fora de casa.
Um dos aspectos que chama a atenção de analistas envolve os revides iraquianos nesta inexplicada guerra. Norte-americanos e britânicos lançaram mísseis e bombas, usaram armas potentes disparadas de suas belonaves estacionadas no Golfo e dos mais modernos aviões do mundo, mas os iraquianos se limitaram apenas a tentar, com sua artilharia antiaérea, evitar o pior, destruindo mísseis ou, com sorte, derrubando algum avião. A falta de resposta do Iraque não constituiria uma postura diplomática ou política, mas foi decorrente de uma realidade: os iraquianos, depois de 8 anos de sanções e de inspeções, simplesmente não têm armamentos suficientes para retaliar. Se isto for verdade, cai por terra um dos argumentos dos atacantes, que dizem que os bombardeios foram feitos para acabar com o poderio bélico iraquiano, que seria uma ameaça aos vizinhos e ao mundo.
Entretanto, ainda que assim seja, é certo que o governo iraquiano poderia ter adotado algum tipo de atitude bélica, ameaçando pelo menos os vizinhos, especialmente o Estado de Israel, que figura entre os inimigos naturais de Bagdá e dos árabes mais radicais. Mas o Iraque não fez nada disto. Limitou-se a enfrentar como pode os ataques, enquanto a população tentava manter uma vida tão normal quanto possível.
Os ataques acabaram se convertendo, na verdade, num dos maiores fiascos bélicos da História recente. O presidente Bill Clinton e seu fiel aliado o primeiro-ministro britânico Tony Blair acabaram ajudando, com toda esta demonstração de força, mudar a imagem de Saddam Hussein diante do mundo. De repente, o líder iraquiano aparece como uma pessoa que enfrenta forças terríveis e tenta livrar seu povo de um massacre absolutamente incompreensível. Ademais, existe aí o aspecto humano: pode-se até questionar Saddam Hussein, considerá-lo um tirano tão cruel e temível quanto Augusto Pinochet ou qualquer outro, mas quem enfrentou a chuva de bombas e mísseis foi o povo iraquiano, seres humanos indefesos que já sofrem há 8 anos em consequência das dificuldades impostas pelas sanções da ONU. Agora, é provável que até as sanções impostas a Bagdá - até certo ponto justificadas - caiam rapidamente.
Jogos de guerra como a operação Raposa do Deserto são abomináveis. Mostram força, tecnologia, ataques precisos, mas não conseguem eliminar um sentimento de frustração, em que mesmo na virada do século o homem ainda precisa recorrer a bombas para tentar buscar a paz. Como já ficou claro, não haverá qualquer tipo de sanção oficial contra os agressores. O que se delineia é um outro tipo de sanção, pior que qualquer outra: a sanção da raça humana contra este tipo de atitude.





