Ir dos sonhos diretamente aos projetos
Na entrevista coletiva estampada hoje nos jornais, o presidente Lula enumera os seus sonhos, e todos eles são maravilhosos, mas será necessário o Governo contribuir com sua parte, por via de mecanismos que os tornem realidade. Interessa pouco aos cidadãos ouvir de novo tão elevados ideais, porque estes já eram peça de campanha do então candidato, e esperavam que em 850 dias de comando da República algumas medidas concretas já houvessem sido tomadas e que grandes projetos emanados do Executivo estivessem em debate no Congresso. Mas esses projetos não existem, e sonhos continuam sonhos se não houver um despertar e a verdade seja encarada. Da entrevista, subtrai-se que o Governo Lula tem apenas administrado coisas genéricas, destas que andam quase sozinhas, pelo natural fluxo da própria máquina pública e dos seus serviçais. Se melhorias aconteceram, como ressalta o Presidente, nada há de grande expressão, ao menos ante tantas promessas, que seduziram a nação brasileira e a encheu de esperanças. Não se pode negar que Luiz Inácio Lula da Silva é um governante bem intencionado e que realmente aspira alcançar ideais, mas é que perde tempo, pela ausência de projetos de coisas novas, de alterações de sistemas e legislações, algo que empolgue os brasileiros e os leve a marchar com o Governo. Perguntado sobre o salário mínimo, Lula disse que o Brasil vive, a respeito, ''o seu melhor momento''. Não se pode crer que R$ 300 reais/mês, a partir de amanhã, sejam algo digno desse entusiasmo, até porque isto representará apenas 30% do que foi esse ganho em anos anteriores. Um salário que só basta para 2 cestas básicas e não de uma família, mas individuais certamente que não merece o nome de salário. Apenas sonhar com salário maior não vale, porque seriam necessárias medidas governamentais como abrandar a carga tributária e o volume dos encargos trabalhistas e assim dar condições à cadeia produtora nacional de empregar mais e pagar melhor. Lula fala em solidez da política econômica, mas tal não é plenamente correto, embora vislumbre nessa direção. O que avança não é por via de ações do Governo mas da desenvoltura do empresariado brasileiro. Não se pode alimentar grande esperança quando a dívida interna do Governo chega a quase R$ 1 trilhão e que o povo paga de juros, por ela, em torno de R$ 150 bilhões ao ano. Por isso o serviço anual da dívida é maior que todo o investimento governamental em infra-estrutura. E o custo da dívida externa é outra sangria. Na entrevista, o presidente Lula comete o mesmo pecado dos que apregoam a contenção do consumo como forma de domar a inflação, ignorando que isto significará o caos, por paralisar a atividade produtiva, que depende da freguesia consumidora. Lula diz que não tem vara de condão para fazer que todos ganhem muito dinheiro, mas muito pode realizar nesse sentido, não por magia mas por meio de ações. Caso de alguma medida de choque para a baixa dos juros, tema bastante mencionado pelos jornalistas entrevistadores. Respondendo a uma pergunta sobre erros que o Governo admita estar cometendo, o Presidente extrapolou na sua pouca modéstia: ''É difícil reconhecer um erro num Governo que acerta tanto''. Tal crença preocupa, por indicar que o Governo não identifica suas falhas e acha que tudo vai bem, isto evidenciando que as críticas não encontram ressonância na esfera palaciana. Conclui-se, da entrevista, que o presidente da República navega em mar de tranquilidade, e isto é também preocupante, por deixar supor que, no seu entender, tudo vai bem e pouco é preciso fazer. Lula diz que dorme tranquilo. Deve ser por isso que sonha muito.





