Correntes e um cadeado ''guardam'' a porteira da Fazenda Serra Grande, em Congonhinhas, desde que ela foi invadida. A medida é preventiva de acordo com Aristides Avanço, de 48 anos, o ''Nenê'', um dos primeiros a entrar na área. Segundo o agricultor, que é de Joaquim Távora (53 km ao sul de Jacarezinho), os invasores não querem briga. ''A gente tem medo de alguém entrar atirando, a polícia já passou por aqui, mas não entrou, por isso a gente colocou cadeado no portão'', disse.
A medida pode parecer um excesso de cuidado, já que no caminho é difícil encontrar alguém. Mais difícil ainda é chegar até a fazenda, são 22 km de estrada de terra com muitas irregularidades e buracos, e quando chove, moradores da região afirmam que é impossível transitar por ali. Apesar do cadeado, a reportagem da Folha conseguiu entrar na fazenda na última quarta-feira, quando foi recebida pelos agricultores.
Debaixo de um sol forte, os agricultores trabalhavam para tirar o barro de um tanque, onde já funcionou uma barragem. O objetivo é aproveitar a água para irrigar uma horta que já foi plantada e outras plantações que pretendem fazer. Os agricultores planejam vender tomate, repolho e cebola. Já prepararam 20 mil mudas de repolho e pensam em transformar o local em microbacia leiteira. Mas já levaram para a fazenda patos, galinhas, cabritos e porcos. ''A gente aguenta mais uns 40 dias com recursos nossos, depois começa a vender repolho'', disse Simão Bubna, de 56 anos, que também é de Joaquim Távora.
Na fazenda só estão os homens, dormindo em casas, mangueira de gado e barracas. Segundo ''Nenê'', as mulheres e as crianças ainda não foram para o local por causa da falta de infra-estrutura. ''Os filhos estão estudando e não podem perder aula'', disse.
Eles entraram no local depois que souberam que o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) estava medindo a área para uma possível desapropriação. ''Um foi falando para o outro, e o 'povo' foi se juntando, não teve ninguém organizando'', afirmou ''Nenê''. Questionados sobre o movimento do qual fazem parte e, se realmente são do Movimento dos Agricultores Sem-Terra (Mast), os invasores são reticentes. ''É, a gente vai fazer (a invasão) por isso daí (Mast)'', disse ''Nenê''.

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