Intrigas e negócios
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 10 de dezembro de 2001
Rubem Azevedo Lima 
A mentira como arma política resulta, quase sempre, a curto ou médio prazo, em tiro no pé de quem a usa para atingir os adversários. Por sinal, nos tempos que correm, os mentirosos devem ser mais cuidadosos, pois três senadores da atual legislatura já perderam o mandato por mentirem a seus pares.
Antes que o governo fizesse favores a organizações sindicais e negociasse votos para mudar as leis trabalhistas, circulavam mentiras cabeludas na Câmara. Acusava-se a oposição de bloquear a ordem do dia nessa Casa para impedir o governo de pagar os soldos de oficiais, sargentos, cabos e praças das Forças Armadas, bem assim aos inativos e pensionistas. Mais de um milhão de pessoas.
No exercício de prerrogativa constitucional, a minoria procurava derrubar projeto do ministro Dornelles, que mexia com os direitos de 33 milhões dos trabalhadores da economia formal, o que, em tese, poderá deixá-los à mercê das imposições patronais em detrimento do respeito à legislação vigente.
Ideologias à parte (ressalvada a do jornalismo, que é, ou deve ser, a crítica, a busca da verdade), algumas organizações sindicais, cooptadas pelo governo, preferiram os riscos da assimetria de acordos entre empregados e empregadores à garantia de suas conquistas legais, sob a proteção da Justiça. Mesmo sabendo que a prática desses acordos, a ''flexibilização'' dos direitos dos trabalhadores, segundo o governo, fracassou na maioria dos países que a adotaram.
Apesar dos ataques à obstrução oposicionista, viu-se, porém, que o Ministério da Defesa e o governo foram os únicos responsáveis pelo atraso no pagamento dos militares. Só a destempo, não ignorado por FHC, a Defesa pediu os recursos para saldar esse compromisso. Quando a presidência exigia de seus aliados na Câmara a flexibilização das leis trabalhistas, já sob regime de urgência, o presidente e seus líderes sabiam, perfeitamente, que essa urgência bloquearia naquela Casa a votação de qualquer outra matéria.
Por que os recursos para pagar aos militares foram pedidos quando era impossível liberá-los? Acredite em erro quem quiser. Tais fatos nunca são inocentes nem ocorrem por acaso. E nossos maquiavéis teriam indisposto a oposição (que o governo sempre chama de ''irresponsável'' ) com os militares, deixando-a mal em 2002. O ano eleitoral que pode consagrar o sistema de compra de votos e de consciências do novo modelo de democracia política, sem justiça social, no país.
- RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília


