"Aqui deveria funcionar igual a uma igreja, com as portas abertas, mas não tenho coragem de fazer isso. Esses atentados não acontecem só no Rio, é no País inteiro." A declaração de uma mãe de santo de Londrina ilustrou a reportagem "As pedras da intolerância", que a FOLHA publicou na última sexta-feira. A frase mostra a sensação de medo que atinge pessoas que sofrem preconceito ou discriminação por conta da religião que escolheram seguir.
A intolerância religiosa foi um dos temas mais debatidos nos últimos dias no Brasil devido a um episódio violento que aconteceu no dia 14 de junho, na Vila da Penha, no Rio de Janeiro. Kailane Campos, 11 anos, que é candomblecista, foi apedrejada na saída de um culto. A criança e outras pessoas, todas vestidas de branco, caminhavam para casa quando dois homens começaram a insultar os religiosos. Eles levantaram uma bíblia, chamaram os candomblecistas de "diabo" e um deles jogou uma pedra que atingiu a menina.
Kailane chegou a desmaiar, mas o ferimento não foi grave. No último domingo, a menina participou de um protesto contra intolerância no bairro onde mora, no Rio, que teve participação de centenas de fiéis de diferentes religiões, como católicos, evangélicos, adeptos do candomblé e da umbanda.
De acordo com dados da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, em 2014 foram registradas 149 denúncias de discriminação religiosa por meio do canal de denúncias Disque 100. O Estado com maior número de denúncias foi o Rio de Janeiro, com 39 ocorrências, seguido de São Paulo, com 29 reclamações. No Paraná, foram cinco queixas. Os adeptos das religiões de matrizes africanas são as vítimas mais frequentes. Certamente, muitas pessoas que sofreram ou sofrem discriminação religiosa deixam de denunciar. A própria personagem da reportagem da FOLHA, representante de um centro de umbanda em Londrina, contou que o telhado da casa é alvo constante de pedradas.
A intolerância religiosa se traduz por meio de atitudes ofensivas a diferenças crenças e religiões, mas pode virar perseguição e ações de violência física. É um crime de ódio que fere a dignidade humana e a liberdade do indivíduo. Esse tipo de discriminação tem causado sofrimento e conflitos em vários países. Existem leis que protegem os cidadãos da discriminação religiosa. Mas é preciso considerar que o combate à intolerância passa pelo esclarecimento e pela educação.

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