Intolerância e preconceito cercam o caso
A disputa pela terra, que já dura mais de um século, motiva um latifúndio de mágoa, preconceito e acusações de todos os lados. As duas partes envolvidas agora, os negros descendentes dos escravos herdeiros e os descendentes dos imigrantes alemães que fundaram a Cooperativa Agrária Mista Entre Rios, raramente conversam frente à frente. Mas as duas partes não poupam adjetivos umas às outras e usam a referência étnica de ''alemães'' e ''negros'' como se fosse uma forma pejorativa de tratamento.
No assentamento das famílias dos negros moram cerca de 130 crianças que não têm escola e precisam ir estudar em Entre Rios, sede da Cooperativa Agrária. Eles estudam em escola pública e são comuns relatos de preconceito racial. Os pais das crianças, por seu lado, reagem falando dos ''alemães'' como se fosse um sinônimo de ''inimigos'', mesmo que sejam crianças. Os filhos dos descendentes dos suábios têm escolas próprias pagas pela cooperativa.
As duas comunidades têm seu líder temporário nesta briga secular e os dois se mostram menos agressivos que muitos dos que estão a seu lado. Da parte dos descendentes dos negros está Domingos Gonçalves dos Santos, no alto de seus 71 anos e com uma saúde de ferro. Para os descendentes de alemães, é o presidente da Cooperativa, cargo hoje exercido por Jorge Karl.
Os dois nunca se falaram e nem demonstram muito interesse em um encontro. No entanto, trocaram poucas e secas palavras tendo a reportagem da Folha como intermediária. Ao saber que um dos entrevistados seria o presidente da cooperativa, Domingos Gonçalves dos Santos disse que só queria fazer uma pergunta: ''Quando é que eles vão devolver a terra dos negros?''. A resposta de Jorge Karl, apesar de um tanto surpreso, veio rápida: ''O que a gente não tomou, não consegue devolver''.





