Um panorama se descortina do alto do espigão dos ribeirões Lindoya e Jacutinga em Londrina. É o vale do Heimtal, local onde foi implantado o patrimônio pioneiro no empreendimento da Companhia de Terras Norte do Paraná (CTNP).
Afirma-se que a paisagem expressa ideais, esperanças e afirmações a cada época. Revela a relação dos moradores com o chão. Grava memórias e define o senso de lugar. Mas, mesmo a um bom observador, a paisagem do Heimtal de hoje revela muito pouco. Sua avenida principal e quarteirões regulares se assemelham aos conjuntos habitacionais que vão preenchendo seus arredores. É preciso, portanto, saber interpretar seu plano, a paisagem idealizada pelos pioneiros.
No imaginário do londrinense, o Heimtal foi um pacato núcleo rural de imigrantes. Um memorial descritivo dos anos 50 chega a reconhecer o local como "célula-mater" de Londrina. Mas, a maioria considerava "inerme e sem progresso no seu desenvolvimento". Essa afirmação não reflete totalmente a importância deste patrimônio no Norte do Paraná. Foi a experiência pioneira de projeto em todo o empreendimento da CTNP.
Heimtal foi implantado num eixo Norte-Sul, que ligava Carambehy ao rio Paranapanema, tangenciando a serra de Apucarana. A área em questão, na bacia do ribeirão Jacutinga, pertencia às terras de concessão do engenheiro Francisco Beltrão. Foi anexada posteriormente às glebas da CTNP.
O patrimônio foi projetado pelo geodesista russo Alexandre Razgulaeff entre 1928 e 1929. É preciso decifrar os componentes da paisagem projetada. A planta idealizada por Razgulaeff impressiona pela riqueza na linguagem urbanística. Um retângulo de quarteirões regulares se espalha pelo vale. O limite oeste é irregular. Dialoga com a linha de cumeada. À meia encosta segue uma avenida que termina num "V", cênico, já na saída para a Gleba Jacutinga. Na parte mais plana foi projetada uma praça central, circular, e reservado o quarteirão vizinho para a escola. Nesse local foi inaugurada, em 1931, a Escola Allemã. Na parte alta, do outro lado da praça central, a comunidade adquire lotes para a construção da Igreja Luterana. Foi inaugurada no ano seguinte, em 1932. A Escola Allemã e a Igreja Luterana representavam a base da comunidade: educação e religião. A Igreja Católica seria construída mais tarde, em 1934. Cinco lotes foram adquiridos pela comunidade na bifurcação do final da avenida. O lugar das igrejas Luterana e Católica não estava pré-determinado no plano inicial de Razgulaeff. A saída Norte era marcada também pelo cemitério. A paisagem imigrante é carregada de significados.
A tentativa da Companhia de Terras Norte do Paraná de atrair imigrantes alemães pode ser observada também na escolha do nome Heimtal - Vale da Morada - para o patrimônio. Um pequeno curso d’água, existente no limite norte, recebeu a denominação de Ribeirão Mozel. Uma referência ao importante rio da Alemanha.
Os imigrantes, por sua vez, também tentavam definir o caráter da paisagem do patrimônio Heimtal. Em 1930, uma placa indicativa fixada a um tronco de árvore marcava a entrada do lugar. Escrita em letras góticas germânicas, prenunciava ao visitante a origem dos membros da comunidade. A torre metálica pontiaguda, tradicional da Igreja Luterana, era outra marca maior. Localizada na parte alta da praça central, era um ponto focal no conjunto.
Algumas raras fotos da época mostram uma sequência de moradias, lado a lado, no mesmo lote: o rancho de palmito, a casa de tábuas e finalmente a moradia definitiva com telhado em mansarda. Resultavam num conjunto que ia assumindo feições etnográficas segundo as condições financeiras permitiam.
O tema da Semana Nacional de Museus deste ano é paisagem cultural. No Museu de Arte de Londrina, a exposição "Heimtal - moldando paisagens" permite redescobrir os ideais projetados no patrimônio pioneiro.

HUMBERTO YAMAKI é coordenador do Laboratório de Paisagem da Universidade Estadual de Londrina

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