Cidadão ignorante é apenas um projeto de cidadão, porque não existe meio-cidadão, apenas cidadão inteiro. E o cidadão inteiro, integral, só pode ser aquela pessoa que tem consciência de sua cidadania, seu valor, seu papel social, seus deveres e seus direitos. Sendo assim, cidadão é uma qualidade, um atributo da pessoa, que não pode ser exercido sem um nível mínimo de conhecimento.
Obviamente, não se trata de um conhecimento exclusivamente formal, escolar, mas de um conhecimento decorrente de uma ampla leitura do mundo. Uma observação, uma experiência, uma relação, um aprendizado, essa leitura do mundo é um processo que se instala seja no diálogo com as pessoas, seja na contemplação da natureza, seja na contemplação de uma obra de arte, ou assistindo a um filme, uma peça de teatro, ouvindo música, lendo poesia, literatura, acompanhando a imprensa, enfim, em toda forma de comunicação com a vida. É disso que se faz a cidadania.
Claro, ler o mundo não significa que o que foi lido foi devidamente apreendido. A apreensão do conhecimento só se dá quando o leitor do mundo mudou seu comportamento. Portanto, tão importante quanto as pessoas lerem o mundo é o modo como interpretam aquilo que lêem. Interessa saber é se o objeto que se pretende conhecer está sendo conhecido superficialmente ou em profundidade. E aí está o principal desafio da educação formal e informal: dar condições de autonomia de interpretação e julgamento para o leitor do mundo.
Esse desafio está presente em todos os setores da atuação humana, na disciplina ou indisciplina cívica, na disciplina ou indisciplina pessoal, das trivialidades às solenidades. Um exemplo completo desse desafio é o fumante que fuma dentro do Teatro Guaíra, durante um espetáculo, com ar de safado, abanando com as mãos para dispensar a fumaça clandestina. Cidadão indisciplinado, transgride lei federal, estadual e municipal, além da norma interna do teatro, que proíbe fumar em locais fechados, principalmente locais públicos, onde haja permanência de pessoas. Transgride também as normas de saúde. E ainda vai custar caro ao tesouro público pagar o seu tratamento de câncer ou enfisema pulmonar.
Pode existir um fumante que não tenha tido qualquer informação acerca dos malefícios do tabagismo? Todos leram ou ouviram dizer alguma coisa sobre o assunto. Apenas não interpretaram construtivamente a informação, porquanto não alteram seu comportamento.
Se a democracia tem trazido, mesmo com atraso, a democratização dos acessos, das vias, de leitura do mundo, permanece sofrível a interpretação do que se consegue acessar.
Os meios de comunicação de massa têm trabalhado por essa democratização das vias de acesso ao conhecimento. E com sofisticação de satélites, antenas parabólicas, cabos de TV e de telefone. Pode-se visitar um museu em Paris sem precisar viajar para a França. Mas, e a interpretação, a filtragem, a pesquisa, a explicação? Esse trabalho, posterior ao contato com os objetos do conhecimento, requer reflexão, leituras de apoio, meditação etc.
Às vezes, a maior dificuldade da interpretação é a despoluição do meio. Não é possível imaginar que um telejornal, ‘‘oferecido’’ (patrocinado) por um banco estatal, seja totalmente imparcial - principalmente quando o fato noticiado pode ser desfavorável ao cliente, digo, ao patrocinador. Não é possível imaginar que a tradução de uma obra literária, do alemão para o português, por melhor que seja, traduza fielmente o pensamento do autor. Do mesmo modo, uma peça de teatro de William Shakespeare pode se tornar irreconhecível e incompreensível, conforme a visão crítica do diretor.
Não estou dizendo que a leitura da leitura seja um conhecimento desprezível. Estou dizendo que essa leitura de 2ª, 3ª ou 4ª mãos precisa ser melhor interpretada. Talvez por falta de tempo, talvez por preguiça, as pessoas em geral têm a tendência a ‘‘alugar a cabeça’’ para um único colunista de jornal, ou para um talk show feito o Jô Soares, ou para um comentarista político, e deixam de interpretar isso que poderia ser um festival de frases feitas. Tais leituras de leituras de leituras, embora ajudem, orientem a interpretação, não substituem o encontro com as fontes, com a pluralidade dos meios.
O importante é não estacionar nos clichês fáceis do conhecimento, mas ler e interpretar o mundo, permanentemente. Isso é o que faz do cidadão um homem de seu tempo.

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