Essa história de ficar discutindo se a reeleição é interessante para o País ou não só pode ser coisa de desocupado, cientista político ou quem escreve artigo de jornal (como esse). Em termos de argumentação para fugir do assunto é muito interessante ficar analisando os tipos de reeleição que existem no mundo, qual seria o melhor para nós. Tudo desperdício de papel.
O importante é saber se a reeleição interessa aos políticos nesse momento. Aí sim dá para se ter uma idéia se o projeto vai passar. E pelo ‘‘cheiro da brilhantina’’ tem muito mais gente interessada na reeleição do que se imagina. Não deixa de ser bonitinha aquela afirmação de que uma boa administração tem de ter mais tempo para concluir suas obras, tem de ter mais tempo para implantar a sua ‘‘filosofia’’ de governar. É bonitinha, mas é conversa para boi dormir, porque o que interessa é ficar o máximo possível no poder. Ao invés de quatro, oito anos e se possível ainda mais.
Passar quatro anos no poder já é uma delícia. Imagine trabalhar com a hipótese de permanecer muito mais tempo no andar de cima, desfrutando das benesses que o poder proporciona. Com isso todos ficam fascinados. Do presidente da República ao ascensorista, que arrumou o emprego através de um deputado. Passando, é claro, pelos fornecedores, pela turma que está de fora mas só em termos porque tem acesso imediato aos centros de decisão - aquelas forças que não têm registro partidário e nem mandato, mas têm numerário e influência.
Só para começar: os 5.500 prefeitos que foram eleitos no mês passado estão interessadíssimos nessa história. E é bom lembrar: prefeito não elege governador e muito menos presidente, mas elege deputado federal. Justamente aqueles que vão decidir se a reeleição passa ou não passa.
Como os prefeitos, também estão interessados os atuais governadores e seus secretários, os secretários dos secretários e assim por diante. O deputado Delfim Netto, que é figura suspeitíssima quando se trata desse assunto - porque é do grupo de Paulo Maluf, mas que de qualquer forma tem refinamento na sua ironia - diz que a reeleição pode criar um ‘‘imperialismo municipal’’. O prefeito é eleito, elege sua mulher presidente da Câmara Municipal e ficam indefinidamente no poder, junto com o resto do grupo. Basta que a facção política do prefeito domine a opinião local através dos meios de comunicação.
O exemplo de Delfim Netto pode ser estendido às outras instâncias de poder porque pode-se montar uma estrutura tão sólida que a alternativa desaparece. Só que tudo isso não vai acontecer porque o País esta caminhando a passos largos no seu processo modernizante, principalmente no que se refere às práticas políticas.
Por enquanto a situação é essa: existe muito mais gente, nos círculos políticos que decidem, a favor da reeleição do que contra. Aliás, os que estão contra não têm muito para oferecer. Paulo Maluf, José Sarney, Itamar Franco, Lula não podem oferecer nada de consistente.
Por isso vários amigos de Paulo Maluf estão tentando convencê-lo a mudar de planos. Desistir da presidência da República e ir disputar a eleição para governador em São Paulo, o seu quintal. Maluf é candidato pra lá de forte. O interessante será saber se - uma vez eleito Maluf - Delfim Netto continuará na sua posição intransigente contra a reeleição.
- FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em São Paulo

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