Os movimentos populares começam a florescer de novo, desta vez para protestar contra a corrupção e a impunidade dos políticos, e este é o caminho. Contudo, será preciso que essas manifestações não fiquem apenas nas passeatas e na ostentação de cartazes, mas partam, paralelamente, para ações mais diretas e de mais eficácia, em grupo ou individualmente. Porque incumbe igualmente a cada cidadão reagir diante de arbitrariedades e contra abusos que lhe são impostos, grandes e pequenos. Se a ação é coletiva, ganha ainda mais força, e contra a decisão das multidões não há apelações. As barbaridades impostas pelo poder público, no Brasil, tão tantas que será preciso antepor-se com a mesma intensidade. O desrespeito às leis, de parte dos homens públicos que deveriam ser os guardiões delas está flagrantemente manifestado, então não é preciso que haja temor algum de exercer a cidadania e o que resta da democracia. Não é preciso empregar a violência clássica, mas um pouco mais de vigor. E não apenas contra os maus governantes mas em todas as circunstâncias que o exijam. No caso dos parlamentares que são os que fazem as leis e podem eliminar as inadequadas há que cercá-los quando eles descem às bases, e fazer-lhes cobranças face a face, sem permitir que consigam safar-se. Repetindo-se isso continuamente, chegará o momento em que eles terão medo e começarão a aprumar-se e não mais retornarão de mãos vazias. E cobrar-lhes não só pelas denúncias e delitos da corrupção, mas também pela inoperância. Apenas não votar mais neste ou naquele e transferir o voto para outro será apenas um ato de reptição se ele vier a fazer o mesmo, e é bastante provável o faça. Se o povo bloquear as agências bancárias em todo o Brasil, como fizeram os agricultores valendo-se de seus tratores, e se isso for um procedimento regular, os juros inevitavelmente cairão. Idem com o pedágio, sem prejuízo do tráfego, e com outras tantas coisas. Contra a desordem institucionalizada deve antepor-se a reação do povo. Se uma câmara de vereadores se insurge contra a economia pública e propõe serviços e obras faraônicas para benefício próprio, os cidadãos devem ocupar o plenário e não permitir o fluxo da votação. Se um estabelecimento comercial cobra juro extorsivo nas vendas a crédito, tal qual os bancos, a sociedade organizada deve intervir, até o ponto em que esses maus comerciantes temam perder freguesia. Apenas reclamar, sem agir, não leva a lugar algum. A energia dos jovens manifestantes que agora despontam deve ir em socorro dos idosos que estão nas filas da Previdência, e se houver pressão contínua, os que estão lá dentro se intimidarão e passarão a atendê-los decentemente. Porque os abusos não estão apenas nos parlamentos e nos gabinetes mas também nas repartições públicas. Há que encontrar uma fórmula de impedir também a cobrança abusiva dos impostos. Se os rigores da lei são aplicados contra os cidadãos que excedem seus limites em busca de defesa e de direitos, o sistema deve punir com o mesmo rigor os abusos instalados nas instituições. Nada resiste ao poder e à ação de um povo cheio de razão.

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