Intelectuais saem da letargia - Gilles Lapouge
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 07 de setembro de 1998
Gilles Lapouge 
Os intelectuais, que tanto gostam de aconselhar os príncipes, estavam em silêncio havia muitos anos. Os últimos grandes trovões foram os de Jean-Paul Sartre (no caso de seus sucessores, como Bernard-Henry Lévy, não falemos de trovões, mas de simples rosnados). Mas, agora, a intelectualidade sai de sua letargia. E sai para a esquerda.
O primeiro a levantar a voz, Pierre Bourdieu, do College de France, é um esquerdista kitsch. Defende todas as reivindicações: dos pobres, operários, sem-documentos, mulheres, etc.
Hoje, um novo grupo deixa a toca. São homens de esquerda, mas rigorosamente opostos a Pierre Bourdieu. É uma esquerda da virtude e da lei, da nação, do Estado, da autoridade e da responsabilidade, quase da polícia. São os antípodas do esquerdismo. Um longo manifesto, no jornal Le Monde, revela essa nova variedade da esquerda.
O manifesto é assinado por oito nomes - entre outros, Régis Debray e Max Gallo, ex-ministros de Mitterrand, e Jacques Julliard, editorialista do jornal de esquerda Le Nouvel Observateur. O texto apresenta uma versão forte, glacial e taxativa da esquerda, na linha direta da Revolução Francesa, pura e implacável, quase cruel de tanto legalismo, que exalta a república e seus deveres, a lei e suas obrigações, a nação e suas exigências.
A república francesa está em decomposição, a ponto de ser preciso fundá-la de novo. Os motivos? A permissividade, o relaxamento, o laissez-faire, o abandono da lei. Os caminhoneiros não estão contentes. Bloqueiam as estradas. Os agricultores estão tristes, queimam tudo. E a lei cala-se.
Perfila-se uma nova filosofia social: a do consumidor em oposição à do cidadão, a do socorrido em oposição à do que tem direitos, a da vítima em oposição à do militante. Não há mais regras, mas situações particulares a regulamentar, caso a caso, com humanidade, compaixão, doçura. Eis a guinada: o Estado comporta-se como uma irmã de caridade.
Assim, essa esquerda nova apela para noções que parecem idéias de direita: segurança, polícia, ordem, sanções, instituições, lei, disciplina, dever. Exemplos dessa guinada humanitária ou permissiva: quando, na escola, os alunos ameaçam os professores, sugere-se voltar à escola do século 19, dura, rígida, mas a serviço da lei e da república. Na rua, reinam as quadrilhas. Nas cidades, a polícia fecha os olhos à droga, enquanto a lei a proíbe. Apliquemos a lei.
Mesmo em relação a um dos problemas mais dolorosos, o dos imigrantes, os oito signatários distinguem-se do humanismo da esquerda, que, no fundo, gostaria de ver todos os sem-documentos legalizados. No manifesto, deseja-se que a naturalização seja concedida apenas sob certas condições.
Muitos desses homens, de uma esquerda jacobina, pura e legalista, combateram outrora o general Charles de Gaulle. Mais tarde, arrependeram-se e reconheceram o gênio do general. Régis Debray foi o primeiro a prestar-lhe homenagem. Max Gallo publica neste momento uma monumental biografia para glorificar De Gaulle.
Mais à esquerda, surgirão gritos de traição! Debray, Gallo, Julliard teriam passado para a direita. Que horror! Absolutamente: por trás desse discurso em favor da autoridade, da segurança, da lei, contra o laxismo e o paternalismo assistencial, estão dois alvos que os oito atacam com a mesma violência: por uma parte, os esquerdistas, que sonham com a liberdade, o paraíso, a utopia e a bondade, isto é, um mundo que será dominado pelos fortes, os grandes, pois a lei não oporá mais barreiras à sua cobiça.
E o segundo alvo é o liberalismo, que se parece no fundo com o esquerdismo. O liberalismo, como o esquerdismo, não tem outro desejo senão o de uma sociedade sem lei nem sanções. E os fracos é que serão arrasados.
- GILLES LAPOUGE é jornalista e correspondente da Agência Estado em Paris


