INSTRUMENTO DE PODER - Brasil é espionado pelos EUA desde 1940
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sábado, 07 de setembro de 2013
José Lazaro Jr.<BR>Reportagem Local 
Não foi a primeira vez que os Estados Unidos da América (EUA) espionaram o governo brasileiro, nem deve ser a última. Essa é a opinião do especialista em história militar Dennison de Oliveira, pesquisador da Universidade Federal do Paraná (UFPR) no Departamento de História. "A espionagem faz parte das práticas norte-americanas de relações internacionais", afirma. Dennison de Oliveira fez mestrado e doutorado na Unicamp e já lecionou em Maringá. É autor de vários livros, como "Os soldados alemães de Vargas" e "Os soldados brasileiros de Hitler".
O caso mais recente, divulgado semana passada, mostra que a Agência de Segurança Nacional dos EUA (NSA, na sigla em inglês) monitorou a comunicação pessoal da presidente Dilma Rousseff (PT) com seus assessores, montou um infográfico com os dados e usava esse material em um curso de formação dos futuros agentes de campo.
A prática foi denunciada por Edward Snowden, ex-técnico da CIA, que está exilado na Rússia para evitar represálias por ter exposto um esquema internacional de interceptação de emails, pesquisas na web, chats e telefonemas. "Roubar ou comprar informações se converteu num instrumento de poder dos EUA sobre outros países", analisa Dennison, para quem o Brasil sempre esteve exposto à arapongagem internacional.
Ele lembra, por exemplo, que a comunicação telegráfica do País sempre esteve submetida a empresas estrangeiras, desde o início dessa operação em 1875. Nessa data, os primeiros cabos submarinos foram inaugurados por D. Pedro I, ligando o Brasil a Portugal via equipamento disponibilizado pela British Eastern Telegraphy Company, e não é possível precisar quanta comunicação diplomática do Brasil pode ter sido interceptada a pedido de outros países.
Para se ter uma ideia de como a bisbilhotagem acontecia em grande escala no mundo, já na 1ª Guerra Mundial, em março de 1917, os britânicos "vazaram" para os jornais americanos um telegrama da Alemanha para o México, em que o regime europeu sugere uma aliança entre as nações contra os EUA. O episódio ficou conhecido como "Telegrama Zimmermann" e mostra como a espionagem é mais velha do que se imagina.
Existem relatos mais antigos de espionagem dos EUA no Brasil?
O respeitado professor e pesquisador Frank McCann, em seu clássico livro "Aliança Brasil-EUA 1937/45", afirma que os dois países trocavam informações. Por exemplo, o ministro das Relações Exteriores no governo Getúlio Vargas, Oswaldo Aranha, franqueou o acesso a membros do governo dos EUA a muita documentação diplomática reservada que estava sob seu controle. Na época, o Brasil passava pelo Estado Novo (1937-1945).
Mas os vazamentos eram só intencionais ou havia interceptação de dados?
O historiador norte-americano McCann afirma que, além desses vazamentos intencionais, "era surpreendente quão rapidamente Washington tomava conhecimento dos conteúdos das mensagens entre a embaixada brasileira nos EUA e o Rio de Janeiro (então sede do governo federal). Há insinuações de que os norte-americanos estavam monitorando o cabo internacional; se isso é verdade, os brasileiros se achavam em marcada desvantagem em suas negociações com os Estados Unidos". Esse relato está na página 214 deste livro, que foi publicado no Brasil pela editora do Exército.
A espionagem diplomática, portanto, não é nenhuma novidade?
A prática de governos espionarem outros governos é antiga e largamente disseminada. Embora se trate de uma prática que afronta as relações internacionais, é ao mesmo tempo um recurso demasiadamente importante para deixar de ser utilizado. O contexto que antecede a entrada dos EUA na 2ª Guerra Mundial é típico dessas práticas. Por exemplo, meses antes de serem atacados pela Marinha Japonesa os norte-americanos já monitoravam as comunicações dos seus futuros inimigos, decifrando quase que em tempo real as mensagens militares nipônicas. Imagine no caso brasileiro, em que eles já eram donos dos cabos telegráficos: seria surpreendente se o governo daquele País não se aproveitasse do fato para espionar o regime de Getúlio Vargas.
Na época o Brasil desconhecia esse risco de os EUA estarem espiando seus telegramas?
O serviço de transmissão de mensagens telegráficas para os EUA era operado por empresas daquele país. Tanto o Estado brasileiro quanto particulares daqui dependiam dos serviços dessas empresas de origem estadunidense para se comunicarem, em especial nos casos de urgência, com os brasileiros que residiam e trabalhavam nos EUA. Contudo, se as comunicações não fossem urgentes, ou tivessem conteúdo que fosse sensível demais para arriscar algum vazamento, elas seguiam pela mala diplomática, usando os serviços de correio convencional.
Quer dizer que além da espionagem entre os governos havia também interceptação de dados particulares?
São tantos os casos que a conclusão a que se pode chegar é que a espionagem faz parte das práticas norte-americanas de relações internacionais. Roubar ou comprar informações se converteu num instrumento de poder dos EUA sobre outros países. Cabe citar aqui dois exemplos recentes e gravíssimos: em 2008, quatro laptops com informações sigilosas da Petrobras, que eram transportados em contêiner pela empresa americana Halliburtonem, desapareceram e os dados não foram reavidos. Em 2009, um ex-diretor do FBI no Brasil, Carlos Costa, teve um diálogo divulgado pela imprensa nacional em que sinalizava pagamento de propina a agentes da inteligência em troca de informações e grampos em prédios públicos de Brasília.
Existe um período mais bem documentado sobre essa guerra de informação no Brasil?
O período que antecede a 2ª Guerra Mundial é o mais conhecido. Naquele contexto, a Alemanha Nazista desenvolveu uma extensa política de formatação das informações a serem divulgadas na América Latina, no esforço de intensificar as relações comerciais e diplomáticas com todo continente. Tornou-se uma prática comum enviar de graça ou a um custo simbólico fotografias e releases informativos e de propaganda do regime para jornais, rádios e revistas do continente. Os EUA reagiram à altura promovendo uma ampla campanha de divulgação de seus produtos culturais em todo continente e, inversamente, promovendo a cultura latino-americana nos EUA. Essa ofensiva cultural foi um aspecto central da assim chamada Política da Boa Vizinhança do governo do presidente Roosevelt, que visava conquistar o apoio dos países latino-americanos à causa da defesa da Américas contra o nazismo. São dessa época a Carmen Miranda e o Zé Carioca, de Walt Disney.


